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Quinta-feira, Setembro 30, 2004
FILMES DO MÊS

Três meses, aliás, incluindo os atrasados. Entre vistos e revistos.

julho

A Luz É para Todos (47, Elia Kazan) A Princesa e o Plebeu (53, William Wyler)
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (03, Michel Gondry)
Cazuza - O Tempo Não Pára (04, Walter Carvalho, Sandra Werneck)
Corações Livres (02, Susanne Bier)
Desaparecidas (03, Ron Howard)
Destinos Sentimentais (00, Olivier Assayas)
Do Outro Lado da Lei (02, Pablo Trapero)
Espelho D'água - Uma Viagem no Rio São Francisco (02, Marcus Vinicius Cezar)
Estranhas Ligações (02, Delphine Gleize)
Jogo de Sedução (03, Matthew Parkhill)
Justiça (04, Maria Augusta Ramos)
Kill Bill volume 2 (04, Quentin Tarantino)
Leis da Atração (04, Peter Howitt)
Levada da Breca (38, Howard Hawks)
Ligado em Você (03, Bobby Farrelly, Peter Farrelly)
Meninas Malvadas (04, Mark S. Waters)
Milagre em Milão (51, Vittorio de Sica)
O Custo da Coragem (03, Joel Schumacher)
O Falcão Maltês (41, John Huston)
O Processo de Joana D'arc (62, Robert Bresson)
O Sorriso de Mona Lisa (03, Mike Newell)
Passion (82, Jean-Luc Godard)
Quadro Negro (00, Samira Makhmalbaf)
Queimando ao Vento (01, Silvio Soldini)
Roma, Cidade Aberta (46, Roberto Rossellini)
Sexta-Feira Muito Louca (03, Mark S. Waters)
Sinfonia de Paris (51, Vincente Minnelli)
Sylvia - Paixão Além das Palavras (03, Christine Jeffs)
Uma Outra Cidade (00, Ugo Giorgetti)
Vento do Leste (70, grupo Dziga Vertov)
Vítimas da Tormenta (46, Vittorio de Sica)

agosto

A Doce Vida (60, Federico Fellini)
À Francesa (03, James Ivory)
A Idade do Ouro (30, Luis Buñuel)
A Marquesa d'O (76, Eric Rohmer)
A Morte Passou por Perto (55, Stanley Kubrick)
Almas Desesperadas (52, Roy Ward Baker)
Amor sem Fronteiras (03, Martin Campbell)
Anjos da Noite - Underworld (03, Len Wiseman)
Câmera Olho (24, Dziga Vertov)
Cenas de um Casamento (73, Ingmar Bergman)
Como Agarrar um Milionário (53, Jean Negulesco)
Como se Fosse a Primeira Vez (04, Peter Segal)
Copacabana Mon Amour (70, Rogério Sganzerla)
Duplex (02, Danny de Vito)
Ensaio de Orquestra (79, Federico Fellini)
Evandro Teixeira - Instantâneos da Realidade (03, Paulo Fontenelle)
Fahrenheit 11 de Setembro (04, Michael Moore)
Igual a Tudo na Vida (03, Woody Allen)
Mulheres Perfeitas (04, Frank Oz)
O Adversário (02, Nicole Garcia)
O Amigo Americano (77, Wim Wenders)
O Baile (82, Ettore Scola)
O Mistério de Oberwald (81, Michelangelo Antonioni)
O Olho do Diabo (60, Ingmar Bergman)
O Tesouro de Sierra Madre (48, John Huston)
Plataforma (00, Jia Zhang-ke)
Quero Ficar com Polly (03, John Hamburg)
Reconstrução de um Amor (03, Christoffer Boe)
Sem Notícias de Deus (01, Agustín Díaz Yanes)
Sindicato de Ladrões (54, Elia Kazan)
Sob o Sol da Toscana (03, Audrey Wells)
Terra de Sonhos (02, Jim Sheridan)
Todas as Cores do Amor (04, Elizabeth Gill)
Torrentes de Paixão (53, Henry Hathaway)
Uma Rua Chamada Pecado (51, Elia Kazan)

setembro

A Aventura (60, Michelangelo Antonioni)
A Carta (97, Manoel de Oliveira)
A Insustentável Leveza do Ser (88, Philip Kaufman)
A Janela Secreta (04, David Koepp)
A Missa Acabou (85, Nanni Moretti)
A Vila (04, M. Night Shyamalan)
Albergue Espanhol (02, Cédric Klapisch)
Amor à Tarde (72, Eric Rohmer)
Amor em Fuga (78, François Truffaut)
Beijos Proibidos (68, François Truffaut)
Cama de Gato (02, Alexandre Stockler)
Casseta e Planeta - A Taça do Mundo É Nossa (03, Lula Buarque de Hollanda)
Colateral (04, Michael Mann)
Domicílio Conjugal (70, François Truffaut)
Garotas do ABC (03, Carlos Reichenbach)
Jornada de James para Jerusalém (03, Ra'anan Alexandrowicz)
Minha Mãe Gosta de Mulher (02, Daniela Fejerman, Inés París)
O Agente da Estação (03, Thomas McCarthy)
O Garoto Selvagem (70, François Truffaut)
O Homem que Amava as Mulheres (77, François Truffaut)
O Rolo Compressor e o Violinista (60, Andrei Tarkovsky)
Para Sempre na Minha Vida (99, Gabriele Muccino)
Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera (03, Kim Ki-duk)
Redentor (04, Cláudio Torres)
THX 1138 (71, George Lucas)
Voltando para Casa (02, Agnieszka Holland)
posted by tobey, an acer at 11:24 PM

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Sábado, Setembro 25, 2004
DOGMA RELOADED: T.R.A.U.M.A.



O resultado final deste filme nos remete imediatamente à sigla que dá nome ao movimento no qual está inserido. Cama de Gato é algo, no mínimo, interessante, enquanto tentativa de experimentação e boa intenção moral. Talvez o caos que resulte sua realização tenha como propósito uma ponte com as perdições da juventude atual, na velocidade hormonal de uma puberdade mal acabada. Fica difícil entender o por que, por exemplo, de uma edição que extrapola os limites do frenético em toda uma seqüência (que propõe um denso grau psicológico) como aquela do lixão - já que, é mais compreensível e aceitável sua utilização nos momentos labirínticos da mente das personagens, na festa, logo após os créditos iniciais.

Estamos diante de três jovens, de classe média alta, que questionam, nos moldes da cabeça com (momentânea ou não) fome (pseudo?) revolucionária comum à adolescência de muitos, idéias pré-concebidas de mundo perfeito e vida ideal. São cidadãos ordinários, envoltos em situações-chave (festas, drogas, sexo) e que, diante de um momento delicado, agem conforme dita a "regra" de uma pessoa inserida em uma situação limite, inesperada e extraordinariamente delicada: mais por instinto, o senso da hora.

É particularmente fascinante como o documentário, aqui, manda na ficção. No início e no fim, Alexandre Stockler acrescenta depoimentos de jovens vomitando sobre o que fariam se estivessem no lugar das personagens de Cama de Gato, enfrentando as mesmas situações propostas pelo roteiro. Aliás, creio que seja exatamente o oposto que ocorre: os argumentos colhidos é que ditam o rumo de seus três protagonistas. Além disso, em termos de acerto, os poucos minutos documentados pintam um retrato muito mais abrangente do caos urbano e da juventude ociosa/ansiosa do que no filme propriamente dito. Não são as intenções, contudo, as culpadas por sua fraca fluência narrativa, mas sim os excessos do diretor.

Não entendi se a proposta foi ser mágico (como o "dedo de Deus", apontado no momento da morte da mãe; a voz divina no último ato), surrealista (as cabeças dos três, em um fundo branco, comentando a situação; novamente Sua voz) ou "metalingüístico" (a cena dos três, em um cinema cujo filme exibido acabara de ser interrompido por problemas técnicos). Ou nenhuma delas, querendo apenas brincar com o processo de filmar, experimentando tudo o que vier à cabeça no momento. Muito do processo regular de construção de uma película foi deixado de lado: em certo momento, percebi profundo distanciamento meu das personagens, vítimas do mínimo grau escolar de atuações - este, porém, vítima da péssima direção de atores.

Apesar da falta de cadência entre a miscelânia de idéias resultar em dramédia de humor negro apenas simpática e cansativa, há um acaso: quando a música entra, mansa, junto às personagens, e o silêncio vem do riso, e também a angústia e o desespero, há o clique de estarmos diante de uma dolorosa e belíssima cena de estupro. Limpa, irreversível.

Cama de Gato
De Alexandre Stockler. Roteiro de Alexandre Stockler. Edição de Doca Corbett. Caio Blat, Rodrigo Bolzan, Cainan Baladez, Rennata Airoldi, Val Pires, Claudia Schapira, Nany People. 92 minutos. Brasil, 2000.

Link: T.R.A.U.M.A.

Visto no Espaço Unibanco 2, SP, Setembro/2004.
posted by tobey, an acer at 10:55 AM

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Sábado, Setembro 11, 2004
MEIO DE CAMPO: MELHORES DO ANO (ATRASADO)

1 - O Buquê (Jeanne Labrune)
2 - Respiro (Emanuele Crialese)
3 - O Pântano (Lucrecia Martel)
4 - A Vila (M. Night Shyamalan)
5 - Em Carne Viva (Jane Campion)
6 - O Retorno (Andrey Zvyagintsev)
7 - Swimming Pool (François Ozon)
8 - As Bicicletas de Belleville (Silvayn Chomet)
9 - Para Minha Irmã (Catherine Breillat)
10 - O Sorriso de Mona Lisa (Mike Newell)

Menções honrosas: "Chuva de Verão" (Christine Jeffs), "Benjamim" (Gardenberg), "Tiresia" (Bonello), "Como se Fosse a Primeira Vez" (Segal), "Meninas Malvadas" (S. Waters), "Casa de Areia e Névoa" (Vadim Perelman) e "A Marquesa d'O" (Rohmer), que não sei se foi uma estréia ou reestréia por aqui.
posted by tobey, an acer at 1:08 PM

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Quarta-feira, Setembro 08, 2004
A VIDA AINDA DESCE



É difícil escrever sobre A Vila.

Creio que definir o cinema de seu realizador seja um certeiro passo inicial. Shyamalan, a cada novo filme, passa-me uma agradável sensação de despojamento do dito "cinema fantástico". Ora, o que é aquele e.t. de plástico em Sinais senão uma frase endereçada ao espectador do tipo: "Desculpe-me, meu filme não é sobre et's."? Creio que a "reviravolta final" em seu cinema assuma realmente papel - não o da surpresa pela surpresa, mas sim o de sua negação e, conseqüentemente, da lucidez do que foi visto até então.

É fascinante como Shyamalan parece gostar do que faz. É como se entrasse em uma prisão criada por ele próprio (inicialmente a idéia do filme de medo + obrigatório final surpresa) para depois dela escapar ileso utilizando, no fim das contas, a mesma estrutura central (um filme de medo com final surpresa). O cara é um autor que ousa duvidar de si utilizando o básico do sobrenatural/fantástico/terror como desculpa para deixar suas impressões sobre o mundo em celulóide.

A essência do que esse gênero pode emprestar ao cinema e ao mundo nosso é o que parece interessar ao diretor. O Sexto Sentido não é filme sobre espiritismo, assim como Corpo Fechado não é sobre super-heróis com super poderes (pelo menos, não no sentido mais literal da expressão) e Sinais não versa sobre extra-terrestres. Importante reparar que gente comum, de carne e osso, esteve, durante todo este tempo, ao lado dos fantasmas do primeiro filme, dos seres fantásticos do segundo e dos et´s do terceiro. (Se bem que Corpo Fechado exige um pouco mais de complexidade do que esta simples impressão.)

A Vila é puro Shyamalan. Estragar a surpresa é realmente desnecessário. Então, se não viu, não leia mais.

Revela-se um trabalho extremamente libertário e pessimista à medida que cresce dentro do mim. Realmente sério e brilhante o ponto de vista sobre os EUA pós (e pré)-11 de Setembro e a sobriedade e despojamento como este é concebido remete automaticamente ao processo do processo de construção de uma sociedade alienada como a daquele país. Como um pão e circo "do mal".

Há detalhes e passagens extremamente relevantes e belos, talvez inesquecíveis. O momento mais sutil, um dos maiores: as duas meninas varrendo a varanda de uma casa, rodopiando, transmitindo, alegres e sorrindo, a pureza almejada, a volta da inocência hoje perdida.

A paixão platônica que a personagem de William Hurt sente pela de Sigourney Weaver (e a reação desta última quando constata a veracidade do sentimento) é a fina percepção da rigidez moral que a sociedade da época exigia.

A Vila revela mais uma preciosidade (a excelente Bryce Dallas Howard) e confirma outras duas: que o medo é curso natural e que monstros de plástico mostram que, diferente deles, assustadores somos nós, os homens. A última frase do filme, "Eu estou de volta", é, ao lado daquele silencioso, em Dez, dos mais belos gritos de liberdade que já vi no cinema.

The Village
De M. Night Shyamalan. Roteiro de M. Night Shyamalan. Bryce Dallas Howard, Joaquin Phoenix, William Hurt, Adrien Brody, Sigourney Weaver. 120 minutos. EUA, 2004.

Visto no Kinoplex Itaim 5, SP, Setembro/04
posted by tobey, an acer at 10:40 PM

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A ponte entre o cinema, a vida e o que mais vier pelo caminho.