THE BRIDGE

Terça-feira, Março 15, 2005
NÓS ESTAMOS MUITO PREOCUPADOS

A tagline do filme Desventuras em Série vem a calhar em meio a um amontoado de idéias sobre uma coisa só.

Meu silêncio quase que absoluto em uma discussão de cinema na quinta (quem sabe, de quinta) é arma de um descontentamento-protesto contra pessoas que não sabem amar em silêncio. Pois odiar e amar cinema faz parte de um mesmo processo de amor (quando legítimo o for). Isto é uma coisa. Outra coisa é a busca fácil pela insegurança de maltratar o gosto do outro.

Pois tudo em um Godard transpira amor. Nossa Música coloca em xeque nosso papel enquanto seres humanos em um mundo fatalmente desumano. O filme desce até o Paraíso para nos mostrar o quanto esta descida de degraus, nossa música, uma delas, está mais próxima do infinito do que o maior pessimista possa imaginar. Talvez fazer amor com todas estas ferramentas do processo de desilusão com a vida seja mais estimulante do que exclamar pelo fim. Por que como ter certeza do fim? Perto do real, o que é o fim? Não abrir mão de um chão, de qualquer certeza que seja, seria, de certo modo, um processo otimista?

Verdade é que, em meio a tantas incertezas propostas em suas teses, Godard acredita muito na imagem - e isso me leva a crer que essa relação que o cinema tem com a vida, de substituí-la, seja algo minimamente otimista para o ser humano. Mas que Nossa Música é um filme humanista todos não sabíamos?

Dividí-lo em três partes me soa como uma atitude muito bem calculada pelo diretor, no sentido de revelar todas as bifurcações de seu cinema novamente, mas de modo a repensar processos os quais inaugurou, da sua subversão de gêneros ao ensaio fechado. Na primeira, Inferno, redefinir um gênero para impactar o real em pele parece não soar tão apropriado. Frases quase reticentes e música são as protagonistas, ao lado, contudo, da imagem em granulação documental, desenhando o real e o artifício em caráter, como no passado, igualmente urgente, porém, de certa forma, trocando a militância pelo mal do fim e começo de século. Na segunda, Purgatório, temos um Godard tipicamente pós-80, convidando o espectador a se fechar em um mundo que parece, hoje, cada vez menor e particular, o das idéias e da conseqüente reflexão em cima delas. Nossa Música transpira um clima de cerco fechado, de algo sem saída, de problema sem solução. Isto é, por fim, salientado ainda mais na terceira parte, Paraíso, em quadros que parecem saídos de um O Demônio das Onze Horas ou de um Weekend à Francesa. Através de uma frase capital, Godard fecha as três partes de um filme linear em termos narrativos, mas ainda sim labiríntico como toda sua obra.

Talvez uma de suas realizações mais questionadoras. Fato maior é que um cabelo do braço arrepiado e um frio na barriga não podem tentar ser explicados nem em 33 linhas. Acima de tudo, Javier, essa é minha música. Respeite-a.

Notre Musique
De Jean-Luc Godard. Roteiro de Jean-Luc Godard. Sarah Adler, Nade Dieu, Jean-Luc Godard, Rony Kramer. 80 minutos. França/Suíça, 2004.

Revisto no Cinesesc, SP, Fevereiro/2005.
posted by tobey, an acer at 12:17 AM

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A ponte entre o cinema, a vida e o que mais vier pelo caminho.