Segunda-feira, Maio 16, 2005
A VIDA DOS FANTASMAS
Primeiramente, quero deixar minha indignação com esta nova mania que assombra São Paulo (Brasil?) de exibir em digital filmes inteiramente filmados e finalizados em película. Distribuidor e exibidor faturando em cima de nós, idiotas, e dos R$ 14 desembolsados em cada uma dessas cópias picaretas. Whisky, Um Filme Falado, O Sétimo Dia, Brown Bunny - chega dessa palhaçada, né?
Fico triste que meu primeiro contato com uma obra tão pessoal e preocupada com ela mesma como Brown Bunny tenha sido através de uma cópia ruim (a de Whisky até que estava razoável). Filme calculado sim, positivamente justificado porque Vincent Gallo realiza este seu segundo trabalho da forma mais afetuosa, discreta (leia-se honesta) e pertinente. É filme de amor, feito com amor, versando sobre o poder avassalador do sentimento no ser.
A paisagem expressa o que Gallo introspecta. A viagem (interior) a qual embarca o protagonista, por estradas cujo redor exprime a longevidade de um vazio latente e absoluto, servirá, conforme todas as situações evidenciarão, como um processo de exorcização de demônios. Piloto de Fórmula 2, alcançará, ao longo da jornada, um mínimo de cicatrização para sua ferida, causada pela dor da desilusão. O desencanto segue.
A música exerce um poder imensurável neste homem (mas só nele?). Ela entra quando a chuva vem, quando o sol se põe, quando a gente pensa, quando a mente some. Bud Clay precisa de um tempo para se encontrar. Sua companheira é a música. O amor foi atingido por uma flecha, talvez a mais dolorosa das flechas, pois une fato e sentimento; justificada ou não, quando não perdoada, a dor segue eterna. O desencanto, logo, junto à estrada.
A tão falada cena de sexo oral explícita, que causou polêmica em Cannes, revela-se um dos momentos-chave de Brown Bunny (e também um dos mais tristes), transparecendo a relação ambígua da carne no ser humano. Pois ela é tudo e nada - no fim das contas, é disso que o filme trata, partindo daí para pintar um retrato do amor e do sexo e suas bifurcações no atual estado das coisas.
The Brown Bunny   
de Vincent Gallo. Roteiro de Vincent Gallo. Vincent Gallo, Chloë Sevigny, Cheryl Tiegs, Elizabeth Blake, Anna Vareschi, Mary Morasky. 93 minutos. EUA/Japão/França, 2003.
Visto, em uma lamentável cópia em digital, no Top Cine 2, SP, Maio/2005
Link: Trivia for
The Brown Bunny (IMDb)
posted by tobey, an acer at 8:23 PM
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Sábado, Maio 07, 2005
OS TRAÇOS
Qual a relação da arte com a vida? Existe conciliação entre a criação e o cotidiano? Porque criar uma obra de arte, extrair o máximo, a alma de todos os elementos que servem à inspiração é, a princípio, abstrair o restante, todo o externo, interiorizar-se. É mais ou menos o que pensa a personagem de Michel Piccoli em A Bela Intrigante, um pintor que, há dez anos, interrompeu o processo de criação daquele que seria sua grande obra-prima: o quadro intitulado A Bela Intrigante. Entre duas vidas distintas, teve de escolher.
A visita de Marianne (Emmanuelle Béart) o intriga e o assusta. Namorada do jovem artista Nicolas (David Bursztein), servirá de modelo para Edouard Frenhofer retomar a obra inacabada. O esboço, com os traços iniciais, as idéias aflorando, os olhares, o silencio, são acompanhados milimetricamente pela câmera de Rivette, que exerce, mais uma vez, seu domínio absoluto da técnica ao filmar belíssimos planos-sequência e enquadrar (aqui, com sentido duplo e ainda mais relevante) atores, palco e vida de maneira entrelaçada e magnífica. Revisão de Quem Sabe?, urgente.
Atores, palco e vida, tendo em mente que o filme propõe um retorno ao rústico, ao início, uma reflexão a partir de linhas traçadas no chão, de idéias voltadas ao princípio de tudo. O princípio. Desconstruir uma idéia (ou algo) para reconstruir melhor uma vida. Seja ao explorar o feminino, a natureza, a psicanálise e a força motriz que dá sentido ou não ao mundo - Jacques Rivette, libertário, bem sabe.
La Belle Noiseuse    
de Jacques Rivette. Roteiro de Pascal Bonitzer, Christine Laurent e Jacques Rivette, baseado em romance de Honoré de Balzac. Emmanuelle Béart, Michel Piccoli, Jane Birkin, David Bursztein, Marianne Denicourt, Gilles Arbona, Marie Belluc, Marie-Claude Roger. 240 minutos. França/ Suíça, 1991.
Visto no Top Cine 2, SP, Maio/2005.
posted by tobey, an acer at 1:04 PM
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