Segunda-feira, Julho 04, 2005
MONSTROS E TROGLODITAS
Talvez o que mais tenha me entretido em Guerra do Mundos, de Spielberg, foi como o diretor joga com o lado político nesta sua nova aventura. Tudo pareceu ser solto aos pouquinhos, cada detalhe é exprimido com certa distância uns dos outros. Entre um e outro barulho, impressões como pistas falsas levemente levam o espectador a uma reflexão do que realmente acerca a obra, qual é a real mensagem diante de tanto apuro visual. Nisto o filme não é tolo não.
Em certo momento, vemos uma filha indagar ao pai se "são os terroristas" os responsáveis por tamanho caos e destruição. O irmão dela, por sua vez, pergunta se são os europeus. Em outro, dois rapazes: um dizendo que somente os EUA estavam sofrendo tais ataques; o outro, por fim, contrapõe, afirmando que países do mundo inteiro passam pela mesma situação. A peça que fecha a discussão e mostra a que veioGuerra dos Mundos está inserida na figura de um louco. É dele que saem os chavões: que se o Japão consegue uma arma para conter a invasão, a maior potência do mundo também tem de conseguir, e por aí vai.
É certo que um filme-catástrofe de férias como este tem olho maior nos resultados de bilheteria que nas alegorias sócio-políticas que uma obra visionária e atemporal possa proporcionar dentro de uma sala de cinema - mesmo que por trás esteja um diretor íntegro e de prestígio. Mas é muito nítido que Spielberg quer paz. Que, para além de qualquer xenofobia, patriotismo e ações militares edificantes, precisamos entender que o ser humano é um só. Que mesmo um louco é um ser humano com idéias loucas. Só isso.
A partir daí constatamos a diferença do Homem e do Alienígena, do filme pipoca-consciente e do filme político-engajado. Guerra dos Mundos não procura entender o Homem, mas prega a idéia de igualdade entre todos eles. Afinal, pôxa vida, é filme de ET malvado querendo dominar a Terra, e não o novo Michael Moore.
Todo este sabor de sobremesa é, infelizmente, ofuscado pelo prato principal. Como produto, o filme é muito decepcionante, até porque o início promissor é recheado com uma cena de perseguição de primeira, na qual o suspense é conduzido pela lógica do ¿medo do desconhecido¿. Até aquele momento ninguém sabe o que é nem de onde vem aquela ameaça gigante.
O virtuosismo de Spielberg, primeiramente contido, dá lugar, minutos depois, a um exibicionismo que acompanha Guerra dos Mundos desde a seqüência na rodovia, cuja câmera movimenta-se para dentro e fora do carro onde estão os protagonistas, passando pelo déjà-vu de Titanic, Alien, O Resgate do Soldado Ryan e Jurassic Park, até o desfecho.
É ilógico que um roteiro que contenha alguns argumentos tão bons sobre a estupidez reacionária apresente idéias tão simples e mal acabadas sobre união familiar, tão conservadoras e frouxas. O irmão que queria guerriar se salvou, mas se salvou da perdição de fazer o que queria, longe da família que supostamente seria uma afronta à sua liberdade de espírito? Não, ao longo da hipocrisia que supera em ruindade absoluta personagem e atuação de Tom Cruise, temos a impressão de que o filme não queria comprar esta briga. E aí tudo perde o sentido.
War of the Worlds
de Steven Spielberg. Roteiro de David Koepp, baseado em livro de H.G. Wells. Tom Cruise, Justin Chatwin, Dakota Fanning, Tim Robbins, Miranda Otto, David Alan Basche. 118 minutos. EUA, 2005.
Visto em 03/07/05, no Cinemark Metrô Santa Cruz, SP
posted by tobey, an acer at 10:35 PM
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