THE BRIDGE

Sábado, Agosto 27, 2005
A ESTÉTICA DOS FILMES SIMPÁTICOS



Penso que o maior esforço por parte do diretor em Sin City é tentar fazer dele quadrinhos. A única (predominante) coisa perdoável neste filme é que esta camisa-de-força (estética, claro) não ofusca a capacidade do próprio Robert Rodriguez em fazer cinema. Este contraponto anda lado a lado, meio que vagando no escuro à procura de uma luz, um fecho - que não vem. As pequenas idéias, porém, grandes, estão todas lá, servindo de respiro.

Trata-se de uma experiência de cárcere. O que nos resta é sentar e conversar com os outros prisioneiros. Transpondo: dialoga-se muito bem com a narração das personagens, não mais que andarilhos exprimindo emoções e pensamentos, buscando conforto em suas próprias sensações. Basin City é o ideário da cultura pessimista. Talvez também a metáfora para a vida feliz, tendo em vista que instiga a observação aos detalhes, a busca por fragmentos que nos completem. Essa dimensão humana arredonda o quadro dramático e adquire caráter interativo (é so trocar a relação das personagens com seu mundo pela relação nossa com o filme). Fecha o parágrafo.

Sin City - A Cidade do Pecado não é uma pintura em decorrência dos cenários 100% digitalizados, mas provavelmente pelas impressões que adquirem as cores quando entram em cena. Os dois melhores exemplos são o verde nos olhares de Elijah Wood, que incorpora um vilão assustador e que segue a lógica do medo do desconhecido (é incrível como tudo nesse conto funciona), assim como o amarelo em Yellow Bastard que, para além, remete ao culto ao mórbido e à estranheza e aos melhores momentos de David Lynch.

A narrativa noir recebe ajuda muito bem vinda tanto da trilha-sonora quanto dos efeitos de som (perfeitos em DTS), rendendo química interessante com o tom surreal e hiperbólico de algumas situações. Ou seja: Sin City, em duas horas, jamais torna-se algo deprezível, mas é sempre um esboço criativo das pequenas boas idéias - pois as grandes concluem-se como um erro ainda maior.

Frank Miller's Sin City
de Robert Rodriguez e Frank Miller. Roteiro de Frank Miller, baseado em suas graphic novels. Mickey Rourke, Bruce Willis, Clive Owen, Brittany Murphy, Benicio Del Toro , Jessica Alba, Rosario Dawson, Nick Stahl, Carla Gugino, Elijah Wood, Devon Aoki, Michael Clarke Duncan, Rutger Hauer, Josh Hartnett. 126 minutos. EUA, 2005.

Visto no Cinemark Metrô Santa Cruz, SP, Agosto/2005
posted by tobey, an acer at 11:29 AM

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Terça-feira, Agosto 16, 2005
PELE



Talvez o que mais defina o conceito de imersão neste filme seja a cena em que há a parede, a pessoa e o elemento (objeto) externo que demonstre seu interior. É o que chamo de plano-fetiche, no qual a relação do espectador com a imagem, para mim, ultrapassa, subjetivamente, os limites da ficção e estabeleça a noção do sentir a pele. Só alguém que compreenda a imagem como contadora de histórias por si só consegue criar tal sensação de leveza e lucidez. Estamos em terreno raro, no qual trilha-sonora entra na hora certa e atua como personagem, como uma profunda e rara sensação exprimida.

Não só a despreocupação da diretora em contar algo linear, mas todo restante palpável em Desejo e Obsessão parece obedecer a lógica interior dos seus personagens - estes, dominados pelo corpo estranho e perverso da incerteza e do não-pertencer. São andarilhos tentando exorcizar demônios, compreender o que pode ser mais certo que o momento e o desejo intermitente de satisfazer-se. O silêncio não vem apenas dos gestos, toques, olhares e pulsos, com os quais a narrativa vai sendo economicamente construída, mas também da moral da personagem de Vincent Gallo que, com tal sentimento, demonstra que a maior prova de amor pode surgir dos momentos mais calados e egoístas aos olhos outros.

É difícil esquecer tantos momentos belos. Desde os créditos iniciais (que antecipa todo silêncio, o final) até o último diálogo, que prolonga ainda mais a tristeza e o sentido do título original, Trouble Every Day. Como vampiros mesmo, que parecem não pertencer a esta condição e vagam pelo mundo à procura não mais do exato, talvez do conforto.

Claire Denis põe o amor e o desejo à mesa não a fim de apresentar somente (e simplesmente) pessoas como reféns da antropofagia (até porque o filme nem é exatamente sobre isso), mas para moldurar o introspecto, a condição de profunda imersão; o diário processo do início do fim. Esta é só uma aresta. E como enquadra bem.

Trouble Every Day
de Claire Denis. Roteiro de Claire Denis e Jean-Pol Fargeau. Música de Tindersticks. Vincent Gallo, Tricia Vessey, Beatrice Dalle, Alex Descas, Florence Loiret, Nicolas Duvauchelle. 101 minutos. França/ Alemanha/ Japão, 2001.

Visto no Top Cine 2, SP, Agosto/2005
posted by tobey, an acer at 1:18 AM

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Terça-feira, Agosto 09, 2005
A LEVEZA (O SER)



A pluralidade de um objeto - aqui temos o belo (o espaço), o sombrio (personagens e transformações), o animado (a leveza de um humor que causa estranheza), o aventuresco. Um jogo com muitos elementos e coisas bem pequenas. Pequenas como as sutilezas, como as de Sophie quando de seu estado de espírito. O Castelo Animado é algo que te convida a entrar no microcosmo das coisas. Desde o início, no qual presenciamos o adentro de um castelo esquisito e móvel, parece querer estabelecer um sentido para nosso olhar, como um guia: desprendê-lo daquilo que, convencionalmente, chamam de "com sentido". Esse lado da história, orgulhoso talvez, justificaria o fato de eu não ter entendido muito a ação deste filme. A questão que coloca o homem como homem, nem bandido, nem mocinho, talvez justifique o fato de não ter relacionado (como se devesse, quem sabe) um garoto enfeitiçado a um governo e uma guerra. O "externo" não procura fazer muito sentido (pelo menos não fez para mim), mas creio que a chave das coisas concentra-se mais em uma reconciliação do ser humano consigo mesmo, em um mundo desprovido de lógica (ao menos no sentido mais literal da palavra). Mas cheira a infância isto aqui. Temos um espantalho que pula, um homem que voa, um foguinho que fala. Miyazaki chega à essência de tudo, não só porque os traços de sua animação são clássicos, mas também porque seu cinema respeita a ilógica da imaginação. Tal qual a arte, feito mais para sentir.

Hauru no Ugoku Shiro
de Hayao Miyazaki. Roteiro de Hayao Miyazaki, baseado em livro de Diana Wynne Jones. 115 minutos. Japão, 2004.

Visto no Reserva Cultural 2, SP, Agosto/2005
posted by tobey, an acer at 2:57 AM

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Sexta-feira, Agosto 05, 2005
SOMENTE COMO MUNDO (O CINEMA)

Cotidiano. Canal. Rohmer.



O Amigo de Minha Amiga é um filme em camadas. Primeiro há o cenário por si só. Depois, a construção dos espaços e dos personagens. Por fim, a fina desconstrução (ou desenvolvimento) do que há de substancial nos gestos, olhares, atitudes, impulsos e sentimentos. Todos estes elementos seguem uma lógica arquitetônica, talvez não somente pela beleza de sua desenvoltura a olho nú (um conjunto de conceitos mixados e uma beleza só), mas também por sua forma rigorosa e precisa de nos fazer transpor esta hamonia para nossa própria luz. Cada um vê a arte de acordo com seu modo peculiar de viver e pensar a vida.

O raciocínio da arquitetura é seguido à risca (às vezes até às avessas) pela duas personagens principais. Blanche e Lea, que se conhecem, e logo se tornam amigas - e, logo, com um homem em comum. Esta ciranda irresistível de paixões, cortes e planos ensolarados exercita ainda mais nossa capacidade de sonhar com o tangível.



Podemos dizer também que Rohmer é um pacifista, pois constrói um mundo feliz através de diálogos.

L'Ami de Mon Amie
de Eric Rohmer. Roteiro de Eric Rohmer. Emmanuelle Chaulet, François-Eric Gendron, Anne-Laure Meury, Sophie Renoir, Eric Viellard. 103 minutos. França, 1987.

Visto no Top Cine 2, SP, Agosto/2005
posted by tobey, an acer at 1:46 PM

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A ponte entre o cinema, a vida e o que mais vier pelo caminho.