Sábado, Maio 27, 2006
O SOL SE PÕE
A Noite, 1961, de Michelangelo Antonioni   
O jazz parece acompanhar o mundo com sobriedade, elegância e leve derrotismo. É como se ele testemunhasse a decadência de todos os outros que ainda estão a descer. A Noite é o registro de um assombro, a descoberta desse companheiro. O amigo doente e Monica Vitti são os catalisadores da relação do casal, mergulhado por Moreau e Mastroianni, e da sua própria condição de vítima. Pequenas situações que acercam as personagens revelam a fragilidade, incerteza e embriagues que nos acomete no auge da vida. O elevador, junto aos créditos de início, já anuncia que a queda é lenta, dolorosa e inevitável. Antonioni não permite distinção entre céu e inferno, pois o ser humano é tão passivo de suas maravilhas quanto de todos os outros 90%. Gente caminhando em um labirinto sem saída, carregando a enorme cruz da existência. E não entendo o quão "antiquado" isso pode ser considerado. Cresceu muito na revisão.
posted by tobey, an acer at 10:06 PM
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Segunda-feira, Maio 15, 2006
OS MELHORES FILMES DOS ANOS 80
Lista enviada à Liga dos Blogues Cinematográficos. Duro foi montar a ordem. Injustiças à parte:
1 - Carmen de Godard (1983, Jean-Luc Godard)
2 - O Amigo de Minha Amiga (1987, Eric Rohmer)
3 - As Quatro Aventuras de Reinette e Mirabelle (1987, Eric Rohmer)
4 - Conta Comigo (1986, Rob Reiner)
5 - Meu Amigo Totoro (1988, Hayao Miyazaki)
6 - Sob o Sol de Satã (1987, Maurice Pialat)
7 - O Exército Inútil (1983, Robert Altman)
8 - Videodrome (1983, David Cronenberg)
9 - Terror na Ópera (1987, Dario Argento)
10 - Noturno Indiano (1989, Alain Corneau)
11 - Um Casamento Perfeito (1982, Eric Rohmer)
12 - Faça a Coisa Certa (1989, Spike Lee)
13 - Glória (1980, John Cassavetes)
14 - O Selvagem da Motocicleta (1983, Francis Ford Coppola)
15 - O Raio Verde (1986, Eric Rohmer)
16 - A Mulher do Aviador (1981, Eric Rohmer)
17 - Agonia e Glória (1980, Samuel Fuller)
18 - Filme Demência (1986, Carlos Reichenbach)
19 - Asas do Desejo (1987, Wim Wenders)
20 - Sociedade dos Poetas Mortos (1989, Peter Weir)
posted by tobey, an acer at 10:03 PM
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Terça-feira, Maio 09, 2006
DECADÊNCIA E ELEGÂNCIA
De começo temos Jonas (Guilherme Weber), que volta para o interior do Nordeste brasileiro para o enterro do pai (Paulo César Pereio). Jonas mora em São Paulo, capital. Em dado momento, após sua chegada, contam-lhe que o pai (que mal conhecia), através da televisão, assistia ao programa em que trabalha como homem do tempo e que tornou seu rosto famoso, diariamente.
Soledad (Giulia Gam), como parte da pesquisa para um documentário, visita uma espécie de "profeta da água", naquele pedaço parecendo condenado pela seca. Fecha o círculo o trio composto por Bob (Selton Mello), Vera (Mariana Lima) e Falcão (Gustavo Falcão), de carro, pela estrada, atrás do amigo Jonas, deixando-se levar pelo vento que lhes bata mais forte no momento.
O pequeno enlace de família do primeiro parágrafo agrega todos os outros jogadores e serve de introdução para a questão central do filme, que me parece não menos do que a dependência do homem moderno por imagens e mitos. Jonas é alguém que não se enquadra neste mundo, onde cada vez mais obscuro e seco carrega seres em fuga por respostas ou alívios imediatos, à margem do sonho.
Árido Movie, preciso na composição de cenas, enquadramentos e cortes, comenta não só nossa tragédia social, como também a tragédia humana.
Esse tal de Kurt Wimmer, contudo, parece não só deslumbrado pelo poder masturbatório que pode ser exercido pela imagem como tem clara noção de sua relação para com ela. Ultravioleta já nasce datado como um símbolo do que há de pior na relação de mídias: a falta de adequação, de tradução.
Noventa por cento da composição externa parece querer formar par com um videogame ultramoderno alucinatório, mas quase em vão. O talento aqui posa mais belo do que a puberdade tecnológica, e estou falando de um mundo apocalíptico, melhor construído pela trilha agressiva, pela relação que a montagem estabelece a partir dela, construindo uma razoável atmosfera opressora e decadente, e esta por sua vez se afirmando de vez pela força da construção da heroína.
Milla Jovovich é auxiliada por um bom jogo de luzes em alguns bons momentos de drama e aventura, mas sua presença avassaladora empresta alma ao filme. A atriz compra Violeta até o fim, matando 300 de uma vez com a mesma leveza que segura o velho clichê da mãe protetora. Sua personagem é a rebelde boa heroína, cujas ações justificam a lógica de gênero e seus consumidores sem esquecer da lógica do visível. Filmado em digital, Ultravioleta guarda dois pólos: o videogame e a mão de Wimmer, ambos servindo de coincidente metáfora para o próprio enredo que defende.
Em comum, também, são dois mundos, dois filmes, cada um à sua maneira, comentando a sociedade frente ao jogo de poderes políticos (e que se afirmar ele pode do lado que bem entender).
Árido Movie   
de Lírio Ferreira. Roteiro de Lírio Ferreira, Hilton Lacerda, Sérgio Oliveira e Eduardo Nunes. Edição de Vânia Debs. Guilherme Weber, Giulia Gam, Gustavo Falcão, Selton Mello, Mariana Lima, José Dumont, Suyane Moreira, Luiz Carlos Vasconcelos, Aramis Trindade, Matheus Nachtergaele, Maria de Jesus Bacarelli, Renata Sorrah, Paulo César Pereio, Magdale Alves, José Celso Martinez Corrêa. 115 minutos. Brasil, 2004.
Visto no HSBC Belas Artes/Sala Oscar Niemeyer, SP, Maio/2006.
Ultraviolet 
de Kurt Wimmer. Roteiro de Kurt Wimmer. Milla Jovovich, Cameron Bright, Nick Chinlund, William Fichtner, Sebastian Andrieu, Chris Garner, Jennifer Caputo. 88 minutos. EUA, 2006.
Visto no Plaza Sul 2, SP, Maio/2006.
posted by tobey, an acer at 1:31 AM
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Sexta-feira, Maio 05, 2006
FILMES DE ABRIL/2006
Entre vistos e revistos:
Os Desajustados (1961, John Huston) 
Aguirre - A Cólera dos Deuses (1972, Werner Herzog)  
Noites com Sol (1990, Paolo Taviani/Vittorio Taviani)  
A Máquina (2005, João Falcão) 
Tapete Vermelho (2006, Luiz Alberto Pereira) 
Transamerica (2005, Duncan Tucker)   
Violação de Domicílio (2004, Saverio Costanzo)
Terra Fria (2005, Niki Caro) 
Crianças Invisíveis (2005, Mehdi Charef/Emir Kusturica/Spike Lee/Kátia Lund/Jordan Scott/Ridley Scott/Stefano Veneruso/John Woo)  
As Sete Vampiras (1986, Ivan Cardoso) 
O Escorpião Escarlate (1990, Ivan Cardoso) 
O Plano Perfeito (2006, Spike Lee) 
A Professora de Piano (2001, Michael Haneke)   
A Vida Marinha com Steve Zissou (2004, Wes Anderson)   
V de Vingança (2005, James McTeigue) 
Strings (2004, Anders Rønnow Klarlund) 
Marcas da Violência (2005, David Cronenberg)    
Boleiros 2 - Vencedores e Vencidos (2006, Ugo Giorgetti) 
Que Fiz Eu para Merecer Isto? (1984, Pedro Almodóvar) 
Bonecas Russas (2005, Cédric Klapisch) 
Irma Vap - O Retorno (2006, Carla Camurati)
A Grande Viagem (2004, Ismaël Ferroukhi) 
Trixie (2000, Alan Rudolph) 
Viver a Vida (1962, Jean-Luc Godard)    
Carmen de Godard (1983, Jean-Luc Godard)    
Mergulho Radical (2005, John Stockwell)
O Albergue (2005, Eli Roth) 
Meu Melhor Amigo (2005, Wayne Wang)    
Tudo Acontece em Elizabethtown (2005, Cameron Crowe)  
A Lula e a Baleia (2005, Noah Baumbach)  
A Era do Gelo 2 (2006, Carlos Saldanha) 
Cannibal Holocaust (1980, Ruggero Deodato) 
Pele de Asno (1970, Jacques Demy)   
Brasília 18% (2006, Nelson Pereira dos Santos)  
Ménilmontant (1926, Dimitri Kirsanoff)    
Doutor Jivago (1965, David Lean)   
A Última Tentação de Cristo (1988, Martin Scorsese)  
Os Intocáveis (1987, Brian De Palma)  
Aquamarine (2006, Elizabeth Allen)   
Instinto Selvagem 2 (2006, Michael Caton-Jones)
New York, New York (1977, Martin Scorsese)  
La Luna (1979, Bernardo Bertolucci) 
Macunaíma (1969, Joaquim Pedro de Andrade)   
Guerra Conjugal (1975, Joaquim Pedro de Andrade)  
Edu, Coração de Ouro (1968, Domingos de Oliveira)  
Um Casal Admirável (2002, Lucas Belvaux) 
Cidade Oculta (1986, Chico Botelho) 
Três Enterros (2005, Tommy Lee Jones) 
Em Fuga (2002, Lucas Belvaux)  
Esposa e Mártir (1922, Sam Wood)   
O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969, Glauber Rocha)   
São Paulo S/A (1965, Luís Sérgio Person)  
O Profeta da Fome (1970, Maurice Capovila)   
São Bernardo (1971, Leon Hirszman)  
posted by tobey, an acer at 12:06 AM
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Segunda-feira, Maio 01, 2006
O REAL PARA COM O IMAGINÁRIO
Brasília 18%, 2006, de Nelson Pereira dos Santos  
Um filme muito mais sobre um homem que já não se encaixa neste mundo do que sobre falcatruas políticas, este novo Pereira dos Santos acerta já no silencioso intimismo que apresenta e acerca seu anti-herói, um andarilho-fantasma vagando por um mundo sujo e incerto. Brasília e o poder servem de alicerce para a construção, bem construída por Riccelli. Redondo, o roteiro arma um jogo completo de apostas que ainda dá direito a um prêmio final (e real), ironizando com congratulações o próprio protagonista e sua carga patética (recém contagiada). Para legitimar a saborosa farsa, um timing fruto da excelente direção de atores e a rara trilha sonora. E, no fundo, através dos célebres de batismo, diz-se, temos todos poder de persuasão.
O Albergue, 2005, de Eli Roth 
É como Um Drink no Inferno, só que com preconceito e estereótipo no lugar da ousadia. Noto uma visível preocupação do diretor em tentar fazer com que algo funcione, algo acima do que o gênero hoje em dia costuma oferecer, desenhando o espaço, cuidando das personagens. Takashi Miike está lá, uma boa dose de sangue bem impregnada também. Só que O Albergue transforma muitas das nobres intenções em auto-sabotagem. O Leste Europeu agora é o inferno da Terra (algo aceitável, talvez, se o radicalismo tomasse conta da narrativa e do roteiro) e a gente torce a cada minuto para que aqueles americanos insuportáveis morram de uma vez por todas. E aquelas gatas nem sequer são vampiras. Eli Roth tem certo talento para o suspense, mas precisa ser menos cagão.
Pele de Asno, 1970, de Jacques Demy   
Um filme não funcionará se o diretor nele não acreditar. Ou Era uma Vez. Desprendemo-nos, convidados por Demy, de qualquer amarra que descaracterize a fantasia, mas nunca em detrimento dos estímulos que movem suas personagens, humanos como somos. Um rei quer casar com a filha como prometera à sua mulher no leito da morte. É mais ou menos assim, como um feitiço, um pulsar, das incertezas que movem e tornam visíveis nossas impressões e arroubos de felicidades. Como o sentido e o vento de liberdade ao percorrer um bosque, como cantar consigo mesmo, como adoecer e ficar manhoso ao sentir-se, como ouvir uma história de um bom contador, como cavalos azuis e burros de ouro. Não dá para descrever Pele de Asno. O conto de fadas e o cinema que justificam tudo. E tem, de quebra, o plano de câmera mais lindo e espetacular e absurdamente perfeito de todos os tempos.
posted by tobey, an acer at 10:23 PM
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