Sábado, Junho 24, 2006
O VALOR DE UM MODELO
Sorte no Amor (Just My Luck), 2006, de Donald Petrie  
Há algo em Lindsay Lohan que me deixa a impressão de que ela sempre nasceu para os papéis os quais representou até então. É como se nem atriz fosse. Como se os respectivos diretores tivessem encontrado uma menina na rua (ou em um Shopping, ou em um colégio) cuja vida real fosse exatamente como daquela anteriormente e coincidentemente concebida no roteiro de ficção como personagem. Como em um filme de Lucrecia Martel ou de Bresson, guardando as devidas proporções. Sorte no Amor ainda é um estudo minimamente fresco e pequenino, mas relevante, da percepção da vida através de mitos e valores modernos, contrapondo as riquezas naturais presentes no ser humano e as pistas decorrentes do mistério que é a existência. Mesmo sem muito brilho, a direção de Petrie encontra um mínimo de sobriedade abrindo, assim, espaço, especialmente para que o elenco carregue o filme nas costas com competência e simpatia.
posted by tobey, an acer at 12:22 PM
Comentários:
Terça-feira, Junho 06, 2006
FILMES DE MAIO/2006
Entre vistos e revistos:
Pulp Fiction - Tempo de Violência (1994, Quentin Tarantino)  
The Cutting Edge: The Magic of Movie Editing (2004, Wendy Apple) 
A Menina Santa (2004, Lucrecia Martel)    
Os Crimes do Museu (1933, Michael Curtiz)
Frankenstein (1931, James Whale) 
Contracorrente (2004, David Gordon Green) 
Museu de Cera (1953, André de Toth)  
O Novo Mundo (2005, Terrence Malick)   
A Testemunha (1985, Peter Weir)  
Quo Vadis (1951, Mervyn LeRoy)  
A Cor do Dinheiro (1986, Martin Scorserse)  
Hitch - Conselheiro Amoroso (2005, Andy Tennant)  
A História de Adèle H. (1975, François Truffaut)  
Ultravioleta (2006, Kurt Wimmer) 
O Corte (2005, Costa-Gavras)  
Árido Movie (2004, Lírio Ferreira)   
Crime Ferpeito (2004, Álex de la Iglesia)
Achados e Perdidos (2005, José Joffily)
Portal do Inferno (1953, Teinosuke Kinugasa)  
Acordo Quebrado (2002, Lucas Belvaux) 
Bang Bang (1971, Andrea Tonacci)  
Os Fuzis (1964, Ruy Guerra)  
Toda Nudez Será Castigada (1973, Arnaldo Jabor)
Inocência (1983, Walter Lima Jr.)  
Memórias (1980, Woody Allen) 
Polyester (1981, John Waters)  
O Iluminado (1980, Stanley Kubrick)  
RoboCop (1987, Paul Verhoeven)  
Meu Tio da América (1980, Alain Resnais)  
Gotas d'Água em Pedras Escaldantes (2000, François Ozon)  
O Prazer É Todo Meu (2004, Isabelle Broué) 
Retratos de Família (2005, Phil Morrison)   
A Concepção (2005, José Eduardo Belmonte) 
O Rei de Nova York (1990, Abel Ferrara)    
Os Chefões (1996, Abel Ferrara)    
Blackout (1997, Abel Ferrara)  
Enigma do Poder (1998, Abel Ferrara)   
Drugstore Cowboy (1989, Gus Van Sant) 
A Noite (1961, Michelangelo Antonioni)   
Pickpocket (1959, Robert Bresson)  
Touro Indomável (1980, Martin Scorsese)    
Luzes da Ribalta (1952, Charles Chaplin)   
Em Julho (2000, Fatih Akin)
Drácula (1931, Tod Browning) 
Encontros e Desencontros (2003, Sofia Coppola)  
Xanadu (1980, Robert Greenwald) 
O Assassinato de Richard Nixon (2004, Niels Mueller)
Meu Amor de Verão (2004, Pawel Pawlikowski)
Duplicidade (2005, Harry Cleven)
A Sétima Vítima (2002, Jaume Balagueró)  
Cabana do Inferno (2002, Eli Roth)  
Pink Flamingos (1972, John Waters)   
Curtindo a Liberdade (2004, Andy Cadiff) 
Rápido e Indolor (1998, Fatih Akin)
Eletric Shadows (2004, Jiang Xiao)
Elefante (2003, Gus Van Sant) 
Onda Nova (1983, José Antonio Garcia/Ícaro Martins)   
Prá Frente, Brasil (1982, Roberto Farias)
Meu Nome É Joe (1998, Ken Loach)  
As Branquelas (2004, Keenen Ivory Wayans)
Dorminhoco (1973, Woody Allen)  
Rent - Os Boêmios (2005, Chris Columbus)  
Araguaya - A Conspiração do Silêncio (2004, Ronaldo Duque)
posted by tobey, an acer at 10:57 AM
Comentários:
Domingo, Junho 04, 2006
A NÓS A LIBERDADE
Pink Flamingos, 1972, de John Waters   
Baltimore é sempre a mesma para John Waters. O diretor utiliza o escracho como forma de combate ao conservadorismo, sem entrelinhas ou meios-termos. O choque (possível) por parte da platéia surge pela crueza do absurdo e de como Waters parece sempre estar fazendo festa e convidando-nos, cada minuto mais, a fazer parte dela. O carinho expresso por toda essa "gente apenas diferente" (nunca outsiders, talvez, porque quem parece estar à margem são os outros) faz o filme funcionar ainda hoje como um belo tratado humanista. Destaque para toda disputa de Divine na corrida para segurar o título de pessoa mais suja do mundo e para os exercícios de yoga de contração de ânus.
Onda Nova, 1983, de José Antonio Garcia/Ícaro Martins   
Créditos iniciais em lençóis estendidos em um varal e um time de futebol feminino são o ponto de partida desta jóia datada e muito engraçada. O filme não se preocupa muito em jogar possíveis conseqüências diretas de toda a "fúria" libertária que move as personagens. A promiscuidade, as drogas e a quebra de valores sociais são, em boa parte, armas cômicas para os diretores, a linguagem do filme; as reações estão lá, sim, mas não agindo como interferência narrativa. Hoje o filme ganha pontos não só pela sua irreverência (diálogos geniais, atores soltos e em estado de graça) como também pela involuntariedade de toda arte anos 80, presente sempre alegre e colorida. É como um sonho de verão, e os "adultos", os "chefes" estão todos lá também - e é na cena em que duas personagens fingem que nada de anormal sucedeu que o filme se transforma, também, em tudo aquilo que A Concepção, por exemplo, gostaria muito de ser.
Rent - Os Boêmios, 2005, de Chris Columbus  
Afeto é a palavra para o cinema de Chris Columbus. Estamos diante aqui de outra família, talvez nem tão diferente assim daquelas do Uma Noite de Aventuras, Esqueceram de Mim e Lado a Lado. Dá para notar que o diretor gosta de retratar, com (e não "de") forma bem conservadora, seres diferentes entre si (ou da maioria), mas que se completam (ou se cruzam e se entendem; afinal, somos todos, essencialmente, carne, osso e amor). Dos palcos para a tela, Rent conservou a maior parte do elenco da peça, mas mesmo Rosario Dawson (Alfred para ela!) e Tracie Thoms mantêm-se à vontade desde o início. A montagem tradicional cai muito bem no número "La Vie Bohème", no tango e naquele da boate com Rosario - os melhores. O restante, de forma menos agitada, segura as mensagens de aceitação, amizade, liberdade e força na luta contra Aids. E Jesse L. Martin, como sempre, magnífico.
posted by tobey, an acer at 12:58 AM
Comentários:
Quinta-feira, Junho 01, 2006
CABRA-CEGA (O CINEGRAFISTA)
Guardando as devidas proporções, penso: se Araguaya - A Conspiração do Silêncio fosse um filme hollywoodiano, teria sequer a assinatura de Alan Smithee, porque o caso aqui é muito mais grave do que uma simples idéia boa que deu errado. Particularmente acho muito perigoso dizer que tal diretor não entende um mínimo do básico de uma primeira aula de direção cinematográfica. Não digo. Mas, caralho, vejam esse filme.
É o tipo de trabalho impressionante. A primeira coisa que salta em nossa direção é também um péssimo vício do cinema brasileiro hoje: a trilha-sonora, de uma inadequação tamanha; primária, exagerada, entrando sempre na hora errada. Pretensão esta de injetar o "clima" da cena (como se o público tivesse de sentir exatamente e tão somente "AQUILO"), camisa de força de qualquer suposto esforço por parte da imagem.
E falemos dela. E da segunda mania de grandeza, infelizmente também freqüente: o cinemascope. Pra quê, meu bom Jesus?
Abro aqui um grande parêntese, mesmo não querendo comparar um artigo com outro, mas revi Elefante essa semana e muito me deixou feliz e arrepiado a adequação do espaço, da mise-en-scène (magnífica) como um todo ao formato 1.33. Eu não gosto do filme, enfim, nem quero aproximar Gus Van Sant de Ronaldo Duque, mesmo compará-los. Foi só um devaneio de mundo perfeito.
A questão é que Duque não preenche o quadro, não suga bons movimentos corporais nem parece muito preocupado em marcar os atores. O corte inglês é um desastre como alternativa empática entre (e para) as personagens e muito pior enquanto tentativa de profundidade dramática. Os planos são magnificamente tortos; a encenação é um circo, com direito a trovoadas.
As idéias razoáveis recortam a narrativa e ficam perdidas, por fim: imagens de arquivo noticiando a transamazônica e entrevistas com alguns dos reais companheiros (José Genuíno, entre eles), esta última com resultados mais gratuitamente melodramáticos que históricos. Aliás: Amazônia, anos 60, recebendo jovens guerrilheiros, lutando contra a ditadura.
Norton Nascimento, Danton Mello, Rosanne Holland (a maravilhosa de A Concepção), Fernanda Maiorano (Histórias do Olhar), Fernando Alves Pinto à frente. Um elenco desperdiçado. Um show de horrores. Não merece nem uma foto.
Araguaya - A Conspiração do Silêncio
de Ronaldo Duque. Roteiro de Ronaldo Duque, Guilherme Reis e Paula Simas. Norton Nascimento, Françoise Forton, Danton Mello, Narcisa Leão, Stephane Brodt, Fernanda Maiorano, Rosanne Holland, Rômulo Augusto, William Ferreira, Cacá Amaral, Cláudio Jaborandi, Humberto Pedrancini, Fernando Alves Pinto, Pablo Peixoto, Adriano Barroso. 105 minutos. Brasil, 2004.
Visto no Cine Bombril 2, SP, Maio/2006
posted by tobey, an acer at 12:31 AM
Comentários:
|