Domingo, Outubro 29, 2006
30a. MOSTRA - 3
Flandres 
de Bruno Dumont. França, 2005.
Flandres mostra personagens pouco maduros, como bichos selvagens, forçados a ultrapassar as barreiras de sua brutalidade em situações-limite. A indelicadeza desse mundo seco como os cortes e as árvores sem folhas, apático, repleto de vestígios, é expandida para novas fronteiras, como uma guerra de combate maior. Montados em paralelo, esses dois mundos, a princípio sem perspectivas, narrado por Bruno Dumont, ganha frescor por alguns clichês contornados por belas imagens e pelo surpreendente painel do poder dos (bons e maléficos) sentimentos, essa jornada calada da pequenez. Por qualquer motivo, contudo, o filme não me toca.
Sonhos de Peixe  
de Kirill Mikhanovsky. Rússia / EUA / Brasil, 2006.
Um trabalho muito intenso com os corpos constantemente em exercício, diariamente a trabalho do sustento, marca o início de Sonhos de Peixe. Estabelece uma linha cada vez mais tênue entre o documental e o ficcional para, através da paixão, da água e do ímpeto, sonhar pelo direito ao sonho e ao direito em detrimento da imagem pré-fabricada e manipulada em detrimento da igualdade entre os iguais. O russo Kirill Mikhanovsky faz justiça pela delicada observação do tempo, melancolia de afeto a um mundo oblíquo.
Sob o Signo do Escorpião (Sotto il segno dello scorpione)  
de Paolo Taviani / Vittorio Taviani. Itália, 1969.
A projeção de um mundo cáustico, guiado pela lei da imponência, é a matéria prima dos Taviani neste trabalho pontuado por certo estranhamento. A montagem abrupta, com telas pretas, impregna o filme com uma urgência pretendida por uma visão plural do homem em ciclos diversos de lucidez e instinto. A encenação na pré-história abrange uma leitura cínica da nossa condição. Os homens em marcha, com os sinos pendurados no corpo, carregados de força, é um momento impressionante. Pena que a cópia estava péssima.
Honor de Cavalleria  
de Albert Serra. Espanha, 2006.
O inicial contraste físico e espiritual entre Sancho e Dom se estabelece aqui em uma espécie de retiro, de contato, de reflexão e aprendizado sobre a essência e o sentido das coisas sob o humor divino. Imerso em sua loucura, o cavaleiro presta amizade e ensinamento àquele que ainda, ingenuamente, não desacredita na perdição dos homens. O filme trabalha o tempo de forma intensa e radical, pecando por algum excesso de planos além da conta. A recompensa maior vem pela jornada completa conflituosa dos heróis da resistência.
Nue Propriété 
de Joachim Lafosse. Bélgica / França / Luxemburgo, 2006.
Funciona de arrancada, com boas cenas da amizade entre os dois irmãos e sua relação serena com a mãe. Tive a impressão, porém, que o diretor não sabia muito bem o que fazer depois, com elementos até interessantes, mas pouco desenvolvidos (bem ou mal), como a intromissão do namorado cozinheiro nos assuntos familiares - e isso fica bem claro no penúltimo e absurdo plano dos cacos. Isabelle Huppert e Jérémie Renier tentam de tudo.
Transe  
de Teresa Villaverde. Portugal / França / Itália / Rússia, 2006.
Todos vivemos uma guerra, e em uma; todos soldados, andando de trás para frente. Transe é um filme conceitual e que parte da imagem enquanto molde figurado do que está desfigurado, encontrando no subjetivo a única maneira objetiva de traçar o olhar ao incerto. O filme se segura muito bem sem que tudo o amordace, porque a linha traçada pela diretora é descendente e muito bem narrada. A atriz é boa e se harmoniza com toda a concepção poética e vaga do filme, com alguns planos quase expressionistas e liberdades musicais inusitadas.
Shortbus 
de John Cameron Mitchell. EUA, 2006.
Gentil ode de John Cameron Mitchell ao sexo livre - porque o restante do filme são peças pouco trabalhadas e tantas outras que carregam uma visão muito simplista e unilateral sobre relacionamentos modernos. Penso que se a proposta não fosse a de um grande painel, o filme não teria a solenidade presente e ainda mais intensa no desfecho. Não só porque o diretor parece não acreditar nas personagens e em seus problemas de fato (as cenas de sexo e nudez são as únicas forças imagéticas obtidas), como também pelas duvidosas atuações de boa parte do elenco. E algumas boas piadas, como a de Jennifer, ajudam a manter certo interesse.
posted by tobey, an acer at 1:49 AM
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Sexta-feira, Outubro 27, 2006
30a. MOSTRA - 2
Anche Libero Va Bene   
de Kim Rossi Stuart. Itália, 2006.
Através do olhar de Tommy, um garoto de onze anos que vive com o pai e a irmã, forçado a lidar com a volta da mãe, temos não só acesso aos sentimentos muito particulares, à margem do concreto, de seu real, como também a um retrato agridoce do desajuste de um ser frente às imposições e adversidades familiares e do hesito da aproximação dos sentimentos entre as pessoas. Os planos que delineiam a relação de seu amigo com os pais são muito bons e servem de contraponto a metáfora do menino mudo, que desenha duas fases cruciais pelas quais nosso herói aprende a crescer e entender um pouco melhor que a vida é uma dureza. Belíssima estréia de Stuart na direção.
Mary    
de Abel Ferrara. EUA / Itália, 2005.
Conheça a vida. Um apresentador de televisão e uma série de programas com o intuito de discutir Jesus Cristo, sob várias perspectivas. Uma atriz, após viver Maria Madalena no cinema, retira-se para Jerusalém, andarilha. Uma mulher está grávida; seu marido, distante. Um diretor de cinema é censurado por pensar a arte como extensão de pensamentos ocultos e muito particulares. Uma mente desaba pelo excesso de incertezas, paredes e tetos bombardeados pela intolerância, um choro de bebê agoniado pelo estar vivo e a melancolia de sentar ao canto, só. Nessa babel, na qual Jesus é comércio, a violência é uma prece, no qual tudo nos pertence e nos atinge, Ferrara procura enxergar a necessidade urgente e o fascínio pela crença religiosa com bifurcações e interrogação. A imagem é questionada como fonte limítrofe de acomodação e falta de reflexão e montada a partir da idéia de que o cinema é impotente matéria da complexidade. Obra-prima.
Nosso Amor do Passado (Conversations with Other Women)
de Hans Canosa. EUA / Inglaterra, 2005.
A busca pela renovação no cinema é quase motivo de piada aqui (involuntária, sim). Um casal se conhece em um casamento; conversam, revelam e descobrem. A estrutura teatral do roteiro é evitada pela tela dividida constante, que busca uma nova linguagem para servir os flashbacks, ilustrar o pensamento das personagens e substituir o campo / contracampo. A forma briga o tempo todo com o conteúdo, pois nenhum dos dois se contém em exceder os limites do suportável.
Half Nelson   
de Ryan Fleck. EUA, 2006.
A princípio, pela sinopse, apenas um filme de professor e seus alunos. E Half Nelson não abandona seus clichês, porque sabe muito bem lidar com eles. A decupagem inteligente, com câmera sempre muito bem posicionada e uso pertinente do desequilíbrio na mão, valorizam ainda mais os diálogos enxutos. O roteiro simples é um complexo e nunca redentor painel sobre crescer e sempre aprender. O diretor trabalha os atores de forma que a desenvoltura da imagem se confunda e se funda com a notável presença do elenco. Ryan Gosling na pista de dança é, para além, uma dica de que a trilha sonora parece estar colada, como um grito. E o último plano é uma das coisas mais lindas e matadoras que eu vi esse ano.
Fora do Jogo (Offside)  
de Jafar Panahi. Irã, 2006.
Corajosas garotas se disfarçam de homens para poder assistir ao vivo a partida de futebol que classificaria ou não o Irâ para a Copa do Mundo. Assim como outras imposições do regime islâmico, as mulheres não podem acompanhar jogos em estádios. Partindo daí, Panahi exercita, em cima do semidocumental e temporal, um tipo de humor zombeteiro e espontâneo, trabalhando espirituosamente o ridículo da situação. Alguns diálogos impagáveis (como os da cena do banheiro, por exemplo), não tiram do filme, contudo, seu olhar generoso à dimensão humana inerente a todos.
posted by tobey, an acer at 3:08 AM
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Domingo, Outubro 22, 2006
30a. MOSTRA - 1
Uma prova de o quanto eu sou burro me fez perder Como Eu Festejei o Fim do Mundo - mas ok, a estréia está prometida e prefiro acreditar nela. Ainda preciso comentar alguns vistos em cabines e sessões especiais, mas os primeiros, desde sexta, foram:
Dias de Glória (Indigènes)
de Rachid Bouchareb. França / Marrocos / Argélia / Bélgica, 2006.
O filme não tem vergonha de se apresentar com clichês. A música está presente nos momentos “grandes”, há festa, as mulheres, os diálogos (o de maior incômodo, talvez, seja o que anteceda a morte de um soldado em meio à batalha). O problema é que eles não estão a serviço do gênero simplesmente nem de qualquer outra pretensão, porque o diretor não sabe muito bem como conduzi-los junto aos elementos decorrentes da premissa - preconceito racial, união entre soldados; França / Argélia, enfim. A primeira seqüência de batalha, com cenas meio soltas, como metáfora da secura, do fugaz, isola-se do certo cuidado com os olhares e com os planos de silêncio pelo indício preciso de preocupação com o tempo.
12:08 A Leste de Bucareste (A fost sau n-a fost?) 
de Corneliu Porumboiu. Romênia, 2006.
Bucareste parece, no Ano Novo, um lugar feliz - ou, ao menos, um pouco mais quente que alí. A câmera completamente estática revela cotidianos de gente simples, com algo de tristeza, mesmo extraindo (do mau humor) um tipo de humor cínico e muito específico (boa solução aquela com duas ações no mesmo quadro). O diretor, porém, não procura nos colocar na pele das personagens: como o imprevisível, uma surpresa (para nós, não para eles), o filme passa a se desenvolver em apenas um material cênico e idéia, com uma discussão humorada, em um programa de tv, sobre uma possível revolução na cidade - e a câmera se diverte. Ao pé da letra parece que não houve, comenta-se, como o personagem que prefere a câmera no tripé e não na mão. E as luzes se acendem, (há vida) mesmo para os tristonhos.
O Sussurro dos Deuses (Gerumaniumu no yoru) 
de Tatsushi Ômori. Japão, 2005.
O início, planos de um animal / poses distanciadas, já denuncia uma possível exploração do homem enquanto carne e objeto. Parece não haver, aqui, um todo, um conjunto (no sentido de órbita, logístico), mas sim seres guiados por leis particulares, por concepções e desejos impetuosos, livres. Mas sempre em busca. O trabalho com o tempo, frio, lento, rastejado, estabelece uma relação de cerimônia da morte para com a moral e ordem. Como se algo não houvesse, mas almejasse, para além da lama. Pois um garoto, que acabara de cometer um crime, é o mote para que o diretor não poupe nem padre nem freiras, zoofilia, vômito, sujeira entre os dedos do pé e mal estar. Ao tentar radicalizar o que até então estava estudando, ele transforma tudo, involuntariamente, em comédia escatológica e bizarrice por ela mesma, diminuindo o impacto de seu discurso. Mas o desfecho comunica.
Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto)   
de Elio Petri. Itália, 1970.
Um chefe de polícia degola sua amante e, como uma prova para si mesmo, deixa várias pistas pelo local do crime. O teor de invencibilidade e segurança da pregação fascista são colocados de maneira assustadoramente urgente, cínica e cômica no filme de Petri. A câmera inquieta, com suas lentes que sempre estão a revelar e aproximar o protagonista de certa embriaguez alucinatória, da loucura, também se revelam dispositivos sofisticados para a sátira, bem humorada. A trilha de Ennio Morricone, uma obra-prima, completa este olhar agudo sobre o abuso do poder para encobrir injustiças e talvez a insanidade ou completa falta de sentido em tudo o que há.
Climates (Iklimler)  
de Nuri Bilge Ceylan. Turquia / França, 2006.
A quietude e a contemplação do descanso no calor servem, a princípio, para revelar momentos de afeto e uma certa tensão no relacionamento de um casal. Logo vem (para nós) o fim de uma união. Um outro tempo nos leva a conhecer o mundo de Isa (o próprio diretor) um pouco melhor - ambientes, colegas -, mas nunca a ponto de revelar nada a seu respeito que já não saibamos. E vem o fim, e um princípio, agora no frio, novamente com quietude e contemplação. Como uma ciranda, existir aqui é uma busca constante de um algo, de um motivo ou de um alguém, mesmo que isso nunca forme a unidade e sentido que tanto almejamos em vida escorrida de lágrimas constantes.
posted by tobey, an acer at 3:28 AM
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Domingo, Outubro 15, 2006
FILMES DE SETEMBRO/2006
Mês de retorno ao trabalho, dor nos olhos e falta de tempo. Desculpem a demora. A Mostra vem aí. Prometo boletins. Entre vistos e revistos:
A Dama na Água (2006, M. Night Shyamalan)  
As Cento e Uma Noites (1994, Agnès Varda)  
Documentira (1980, Agnès Varda)   
O Êxtase do Vampiro (1973, Joseph W. Sarno) 
Jacquot de Nantes (1991, Agnès Varda)  
O Amor É Mudo (2004, Jeanne Labrune)   
Jane B. por Agnès V. (1986, Agnès Varda)   
Até Já (2004, Benoit Jacquot)  
Lemming - Instinto Animal (2005, Dominik Moll)
A Névoa (2005, Rupert Wainwright)
La Pointe-Courte (1956, Agnès Varda) 
Cléo das 5 às 7 (1961, Agnès Varda)  
As Duas Faces da Felicidade (1964, Agnès Varda)  
O Novo Mundo (2005, Terrence Malick)   
Louco por Elas (2003, Chris Koch)
O Dia Depois de Amanhã (2004, Roland Emmerich) 
Curva do Destino (1945, Edgar G. Ulmer)   
Cafuné (2005, Bruno Vianna)
Sangue Ruim (1986, Leos Carax)  
Eu me Lembro (2005, Edgard Navarro)   
Uma Relação Pornográfica (1999, Frédéric Fonteyne)  
A Vingança de um Pistoleiro (1965, Monte Hellman)    
A Bruma Assassina (1980, John Carpenter)  
Totalmente Kubrick (2005, Brian W. Cook)
Amantes (1984, John Cassavetes)   
Abismo do Medo (2005, Neil Marshall) 
Dias de Abandono (2005, Roberto Faenza) 
O Maior Amor do Mundo (2006, Carlos Diegues)
Cafundó (2005, Paulo Betti / Clóvis Bueno) 
posted by tobey, an acer at 12:59 AM
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Terça-feira, Outubro 03, 2006
O TRISTE FRIO DO VERDE-COGUMELO
Fui saco de pancadas e insultos do mau julgamento hipócrita daquele que desconhece. O preconceito, o sarcasmo, desafiado, desafiador, daqueles que insistem em não levar a outra sensibilidade a sério, dentro da traiçoeira cápsula pseudo-intelectual por eles mesmos cultivada, levada, avessa, tirana. A cápsula dos seres iguais. Fui, e sempre.
Sempre é sempre conjugado pela memória. Edgard Navarro (sabe) exercita a fundo suas imagens de lembrança como se estas fossem coladas ao momento todo. Como se a estória que, de prontidão, ao nascer, já vira história, fosse uma droga, uma sensação, tão prazerosa e absoluta, ao mesmo sentimento, quanto falta, vazio, melancolia. Como um cerco.
Eu me Lembro é um filme equilibrado tanto em suas camadas de romantismo (e no sentido de cada uma, em épocas da vida) quanto no desequilíbrio consumido pelo protagonista, um narrador onipresente, no canto verde-cogumelo. A infância, do aprendizado ao duro aprendizado, do sexo à família, da religião à religião, das dúvidas às incertezas - tudo no filme remete a certo (anti-?) naturalismo e a uma faca de dois gumes: o doce veneno da infância, o princípio do princípio e o princípio, o bonachão e o sem-vergonha, folclórico e anedótico, vivo e onírico. E Fellini.
A amargura da capacidade de reviver a todo instante, música montada como imagem, estáticos, paralisados, acomete, sem concessões, por motivos externos/internos, pela falta de encaixe a qualquer coisa que venha, esteja. Como o moderno não inibindo aquilo a que somos predestinados. Liberdade, para todos os efeitos, é uma prisão, ainda sem solução aparente. A gente lembra. (A gente ri, a gente chora).
Eu me Lembro   
de Edgard Navarro. Lucas Valadares, Arly Arnaud, Fernando Neves, Annalu Tavares, Valderez Freitas Teixeira, Fernado Fulco, Nélia Carvalho, Dantlen Melo, Vítor Porfírio, João Miguel. 108 minutos. Brasil, 2005.
Visto no HSBC Belas Artes/Sala Villa-Lobos, SP, Setembro/2006.
posted by tobey, an acer at 11:01 PM
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