Sábado, Março 24, 2007
UM MUNDO EM ERUPÇÃO
O Cheiro do Ralo 
de Heitor Dhalia. Brasil, 2006.
A conseqüência de viver em um mundo intolerante é a erupção daquilo que incomoda. Mesmo que o final de O Cheiro do Ralo (re)force a idéia sem muita explicação, o que está em jogo no filme é a constante luta por lidar com os próprios impulsos, e das impropriedades que eles podem causar ao meio, bem desenhado aqui pela rispidez de alguns diálogos (mérito também da carismática atuação de Selton Mello) e riqueza de algumas situações (a melhor delas quando do duelo da troca de xingamentos com striptease no escritório). Personagem construído (apesar de alguns excessos de psicologismo), atores plenamente integrados ao espaço (direção de arte fluente), faltou Dhalia costurar as situações de modo que o filme aproveitasse e unisse melhor todos seus elementos. Há mais a sensação de pequenos episódios de algo do que de um filme; ainda assim, contudo, carrega muita coisa. (E nem preciso dizer que é bem melhor do que Nina.)
posted by tobey, an acer at 8:31 PM
Comentários:
Quinta-feira, Março 15, 2007
VIVER, COM HUMOR, NO CARNAVAL
Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América  
de Larry Charles. EUA, 2006.
Não vejo quase nada que possa estar ofendendo tanto os ofendidos com Borat, que é um belo exercício de humor para cinema a partir de pegadinhas televisivas (o que acaba compensando todas limitações imagéticas e narrativas do filme, tremenda colagem de situações - que, dizem, são reais). A agilidade com que elas são apresentadas, porém, é a arma da edição para integrar a falta de reação do público frente à piada com ela mesma, ainda que seja engraçadíssima (quase todas são). Os realizadores não são tolos, mas o filme não é uma crítica a nada (seria a ele mesmo, se quisesse); o que faz é piada suja, pesada, principalmente em cima de extremos, de estereótipos aparentes, em diversos modos de viver e pensar, atirando para todos os lados sem pudor. Essa simbiose torna o filme bastante agradável de ver e repensar.
posted by tobey, an acer at 9:15 PM
Comentários:
O MAIOR AMOR DO MUNDO
Devidamente na minha prateleira. Apesar de dois deles serem fullscreen.
posted by tobey, an acer at 8:35 PM
Comentários:
Quarta-feira, Março 14, 2007
O QUE O MUNDO FAZ, É
High School Musical 
de Kenny Ortega. EUA, 2006.
A vida é muito clara em East High School. As relações entre os estudantes parecem se organizar através da maneira pela qual cada jovem encontra, naquele momento, de se fazer presente. High School Musical só não é claro quando tenta fugir um pouco do universo que retrata: há algo um tanto artificial na maneira como o filme traveste o estilo de musicais como Grease ou Hair (no número em que colegas contam segredos a outros) e o hip hop (a cena na quadra de basquete). O roteiro, ainda, esquece de trabalhar a própria moral, soltando soluções fáceis para conflitos que renderiam (no encontro da maneira de o casal de jovens não perder o musical e, estapafurdiamente, no desfecho duplo da personagem patricinha). Autenticidade (e simpatia de sobra) é facilmente absorvida por Ortega na escolha do elenco, em todas as coreografias e nos momentos em que a cultura pop enlatada é inserida, sem vergonha, como a coisa mais excitante do momento, para todos que se vestem de forma diferente.
Turistas  
de John Stockwell. EUA, 2006.
Pois a vida aqui não é clara, mas as ambiguidades e os interesses das relações que as pessoas estabelecem com as coisas do mundo, neste mundo, são percebidas, ainda quando se está de férias em um longínquo lugar paradisíaco. Turistas me diz muito sobre John Stockwell, diretor muito interessado em olhar gente em situações-limite. Sempre dentro de um gênero muito bem estabelecido, que segue os clichês estruturais (assim como nos anteriores Mergulho Radical, A Onda dos Sonhos, Gostosa Loucura, três que vi de um total de cinco), Stockwell insere o mar como a cruel inversão daquilo que ele poderia representar: a fuga. Parece que não há fuga, não há lugares seguros para se esconder; não há uma East High School, em que a "facilidade" (ou o prazer) da música substitui a complexidade de qualquer outro dispositivo "real". Os créditos iniciais deixam claro que se trata de um país repleto de contrastes, e representa muito bem a primeira possível impressão de um turista, acostumado a uma realidade oposta, ao sair do aeroporto: há os cartões postais, os prédios gigantes, as favelas, a violência, a música. Eu já presenciei o choque de uma portuguesa. E ainda que uma ou duas tolices não tenham sido editadas, Turistas é um microscosmo do ser humano macro, no qual pessoas de origens diversas agem por instinto, defesa, e em defesa de interesses próprios gerados por adversidades locais, globais ou de criação. Ninguém está muito certo nem muito errado, constrói atentamente o roteiro as personagens, situações, diálogos; ninguém é muito certo do que é e para onde está indo descansar.

posted by tobey, an acer at 9:57 PM
Comentários:
OS RIOS, OS DESVIOS
As relações dos filmes dos meses de Janeiro e Fevereiro estão "presas" no meu computador (que continua quebrado). Em breve, aqui, postadas (juntamente com a de Março, que também atrasará). Tal caos, tal vida.
posted by tobey, an acer at 8:36 PM
Comentários:
Domingo, Março 11, 2007
O QUE TE DEIXA À FLOR
A Pele (Fur)  
de Steven Shainberg. EUA, 2006.
A Pele parte de interessantes idéias para compor um filme sobre crises conjugais e descobertas e aceitações pessoais. Há o libelo daquilo que te excita acordar de manhã e dormir à noite, ilustrado por sutilezas (a insônia da personagem de Kidman ou o plano em que ela acaricia os braços do marido); há a inversão da composição de humor, sempre lidando com interessantes opostos não-facilitadores (a barba do marido revelando sua tentativa e desejo em salvar o casamento versus a naturalidade nada bizarra ao apresentar as cenas com os "freaks"); e ainda a mistura de gêneros e subgêneros que potencializa o longa como algo um pouco além do que, à primeira vista, possa ser dito, pré-julgado ou decidido. Mesmo um pouco longo, passa uma impressão de segurança por parte de Shainberg, sobretudo pela direção de atores, ótima, extraindo mais uma grande atuação de Nicole Kidman. É um trabalho carinhoso que me diz muito mais sobre preconceitos, desejos e de como lidar com tudo isso (dentro e fora da tela) do que um trabalho de Todd Solondz ou Todd Field. Mas prometo, Sérgio, que vou rever Palindromes com atenção.
posted by tobey, an acer at 9:00 PM
Comentários:
|