Quinta-feira, Outubro 25, 2007
31a. MOSTRA - POST 3
Não tenho tanta disciplina para fazer um diário de bordo da Mostra, com posts ordenados, dia-a-dia, filme por filme (mesmo que isso não exija disciplina tamanha). Como, devido a problemas emocionais, não fiz nenhuma anotação durante as sessões de hoje, resolvi furar a fila:
Caos (Heya Fawda) 
de Youssef Chahine / Khaled Youssef. França / Egito, 2007.
O cinema de Chahine (pelo que pude perceber pelos míseros três filmes que dele vi) versa com o espetáculo assumidamente grandioso, concebendo um cinema popular realmente pensado em explorar as fórmulas, no que elas podem sugerir enquanto imagens e a partir de seu cruzamento com outros elementos, internos / externos (cinematográficos / sociais). A primeira hora funciona bem pela habilidade do diretor em trabalhar as cenas e encadeá-las, quando a otimização da dramaturgia (em momentos como as do protagonista com a noiva no carro e a cidade ao fundo- ótimos) se desprende de uma seriedade obtida talvez pelo extenso tempo de resolução de alguns conflitos. Mesmo com excessos (o líquido caindo dos olhos no quadro é um deles), dentro de sua irregularidade guardam-se momentos prazerosos.
El Otro
de Ariel Rotter. França / Argentina / Alemanha, 2007.
(Diante de coisas desse tipo, só me resta pensar novamente que o mundo é um lugar para pessoas com muita paciência. Melhor não ler se pretende ver e ainda não o fez)
Spoillers. Tudo no filme são spoillers, tudo no filme se explica não por acaso. A câmera com pouco (ou nenhum) movimento registra, com secura, em três ou quatro planos, a realidade em que se encontra nosso herói e seu desconforto diante. Como se nada tivesse sido entregue (como se tivéssemos dormido durante as cenas iniciais), a jornada começa. Um homem amanhece morto ao seu lado, em um ônibus. Em um hotel (cuja atendente mal consegue lhe olhar nos olhos, de tão coitada), registra-se com outra identidade (por hora, médico). Nas ruas de uma cidade pequena e vazia, perambula. No velório do desconhecido, vigia, pensa, reflete. Quase não existem diálogos para essa vida tão vazia. Um passeio por uma estrada, à noite. Ó mundo incerto e escuro! No quarto de hotel, a atendente (que, há alguns instantes atrás, mal conseguia olhar nos olhos do hóspede), observa-o trocando de roupa. Cara de coitada. Ainda há tempo de cheirar a camisa do homem, com rara satisfação. Quanta solidão! De volta ao velório, um desconhecido vem lhe fazer perguntas sobre... sua identidade. Uma mulher misteriosa o observa. Depois de uma noite juntos, vem uma pergunta envolvendo... sua identidade! Volta para o hotel. Momento de suspense que pode colocar em xeque... sua identidade! Uma mulher está morrendo no hotel. Ele é médico. Por sorte, consegue salvá-la. Ela pergunta... algo sobre... sua identidade. Ele responde, com alívio, seu nome verdadeiro! Salvação da alma, da vida - quanto alívio! Voltando para casa (como se todo mundo tivesse dormido durante tudo o que fora apresentado até então) ficamos sabendo de um segredinho a respeito de sua mulher. A rotina recomeça, mas algo mudou. Tela preta. Os créditos.
É o tipo de coisa que me faz questionar e mandar à merda, sendo bem arrogante, a arrogância e tudo o que penso a respeito da escrita cinematográfica. El Otro é o tipo de filme que pressupõe que o público, diferentemente do realizador, é um completo retardado imbecil.
Sem Arrependimento (Huhwihaji anha) 
de Leesong Hee-il. Coréia do Sul, 2006.
Estréia de Hee-il. Dois jovens gays tentando um relacionamento na capital coreana. Um filme bem interessante que consegue dar um sentido geral (interessante) a um punhado de cenas que soam desnecessárias e aborrecidas. A partir de alguns percalços pontuais e aparentemente sólidos (a diferença de classes, a pressão familiar), a narrativa atribui sentidos ainda mais dolorosos e obscuros à instabilidade da relação entre os protagonistas (que parece não ter fim), que tem muito mais a ver com uma necessidade sobre-humana de driblar a solidão; com um forte impulso de não aceitar, para além da compreensão humana, a incompatibilidade entre dois seres, para além dos prazeres do sexo. Pois é inverno.
posted by tobey, an acer at 2:18 AM
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Quarta-feira, Outubro 24, 2007
31a. MOSTRA - POST 2
Com pouquíssimo tempo para escrever. Mas prometo comentar todos os filmes (mesmo as bolas pretas, que estão se multiplicando).
Sympathy for the Devil   
de Jean-Luc Godard. Reino Unido, 1968.
Esse corte (do produtor) desagradou Godard ao ponto de o fazer remontar uma versão do diretor (One + One). A ruptura com o cinema narrativo (na beleza do homem e sua condição de agente da história) é entregue ao espectador com liberdade similar à abertura do filme para novas formas de diálogo (uma das chaves do cinema do diretor). O diálogo, em Sympathy for the Devil, pode vir das diversas formas de expressão cultural subversivas (a radicalidade dos Stones, o princípio da nouvelle vague, revistas eróticas) e da contracultura (com os Panteras Negras) como ordem de resistência. Um triunfo da mecânica do cinema servindo a observação do constante movimento histórico.
Hula Girls (Hula Gâru)
de Lee Sang-il. Japão, 2006.
Em 1965, em uma pequena cidade japonesa, diretores de uma companhia mineradora decidem construir um vilarejo temático havaiano a fim de promover o turismo, em vista do avanço da substituição do carvão pelo petróleo. O diretor se apóia no “contar uma estória” sem se prender a qualquer tema, sublinhando todos os chavões (que vêm do roteiro e os que ele próprio acaba criando) com uma trilha-sonora que implora escandalosamente por comoção ou empatia.
Um Verão para Toda Vida (December Boys)
de Rod Hardy. Austrália / Reino Unido / EUA, 2007.
Sinistro. Talvez o único interesse prévio seja a presença de Daniel Radcliffe. O filme se apóia basicamente em duas personagens, sem se estruturar decentemente de modo a reter qualquer coisa proposta pelo material de origem (amizade, crescimento, memória, sei lá). O diretor procura engrandecer todos os aspectos da jornada dos jovens (câmera lenta, grua, música às alturas, imagens fantásticas). E chega.
posted by tobey, an acer at 11:40 AM
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Terça-feira, Outubro 23, 2007
31a. MOSTRA - POST 1
Control 
de Anton Corbijn. Reino Unido / EUA / Austrália / Japão, 2007.
Esse registro intimista da curta vida de Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division, é habil em permitir que o corpo do ator e o impulso interior do protagonista, de certa forma, impreguinem a mise en scène e dê a ela o sentido, vivo, de uma outra e importante personagem. Muito se deve ao bom elenco, e a fotografia em preto e branco torna bastante visível (sem cair no exagero) o clima melancólico pretendido. Corbijn falha, contudo, ao tentar conceituar a “dor eterna” de Curtis, expondo detalhes da vida do jovem (especialmente os conflitos com sua esposa) como clichês que apenas reiteram o que já estava mais do que claro e acertado.
Lady Chatterley  
de Pascale Ferran. Bélgica / França / Reino Unido, 2006.
Jornada épica na qual a lógica interior de dois amantes é o elemento que rege pequenos grandes feitos, engrandecendo a estória, modificando a história. A delicadeza da narrativa corresponde ao equilíbrio de naturezas (do verde, do rústico, do sofisticado) como algo mútuo e essencial. Pascale Ferran é muito clara e feliz ao construir, sem simplificacões de qualquer tipo e colada à dupla central, personagens complexas, coadjuvantes alicerces; ao calcar cada etapa de descoberta da protagonista nas cenas de sexo, que vão ganhando, de maneira evolutiva, significados novos e múltiplos. A montagem serve ao relógio de Constance, e a sensação é de que o filme alcança momentos de beleza bucólica incomuns (como a cena da chuva) a seu devido espaço e tempo - mesmo que os últimos vinte e poucos minutos não me tenham feito, no sentido prático, muito sentido.
Império dos Sonhos (Inland Empire)  
de David Lynch. França / Polônia / EUA, 2006.
Com o passar dos anos, a relação de David Lynch com o público tem se tornado cada vez mais clara. Todo filme exige (ou, deveria exigir) algo de quem o assiste (independente de gênero, estilo ou país de origem), e a obra de Lynch, cada vez mais, a partir da entrega de um material-dispositivo, permite ao espectador abstrair e interpretar livremente, longe de dogmas, os questionamentos do diretor a respeito do mistério e da pluralidade que cercam todas as coisas, a partir de conceitos / limites próprios. O método de comunicação de Império dos Sonhos é uma radicalização de A Estrada Perdida e Cidade dos Sonhos em torno da linha tênue que separa a racionalidade humana de sua própria loucura e perdição. Não há como “entender” o filme sem antes deixar de lado o vício narrativo. Cada um sonha como quer, da forma como melhor absorver toda contingência imagética (sofisticada), toda manipulação de significados e sentidos pontuais / de reação direta para cada fragmento solto / complexo. Em Império dos Sonhos, a integração me parece sempre negada (tanto no sentido de “estória” como no estímulo prático das reações nervosas do espectador diante do espetáculo). A única sensação plena foi a de um profundo respeito pela obra.
posted by tobey, an acer at 1:10 AM
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Sexta-feira, Outubro 19, 2007
ESQUENTA PRA MOSTRA - 2
People – Histórias de Nova York (The Great New Wonderful)
de Danny Leiner. EUA, 2005.
O episódio protagonizado por Maggie Gyllenhaal acompanha uma mulher bem sucedida nos negócios e com uma vida amorosa relativamente equilibrada. Através de sucessivas repetições de um cotidiano aparentemente banal, de uma parede aparentemente sólida, surgem, aqui e ali, frestas que evidenciam um possível desconforto diante de muitas aparências. É o melhor episódio de People – Histórias de Nova York, o único cujo registro minimalista atesta algo que, muitas vezes, é difícil de explicar (no caso, e aparentemente, o ocaso pós-11 de setembro). Danny Leiner desencadeia uma série de injustiças e situações mal resolvidas com as outras personagens - um homem sendo analisado por um psicólogo, um casal não sabendo lidar com o filho pequeno, uma dupla de seguranças e uma senhora dona de casa -, parecendo nunca encontrar um rumo e o tom correto para as abordagens (cômico, irônico, dramático, melancólico) e sua amarração em paralelo (causando até o encontro dos desconhecidos em um elevador).
O Búfalo da Noite (El Bufalo de la Noche) 
de Jorge Hernandez Aldana. México, 2007.
A partir de uma tragédia envolvendo um jovem esquizofrênico, de forma até surpreendente, esse roteiro de Guillermo Arriaga (Babel), baseado em seu romance, constrói um clima de intenso suspense com o recorte psicológico de três personagens presos a uma tragédia sem explicação (a morte de um amigo, a princípio, ganha o significado mais amplo da tragédia humana, da agonia de estar vivo). A maior parte dos flashbacks não só descortinam algumas verdades (a serviço da trama), como também se transfiguram no encadeamento de relações que transtorna e afunda a personagem de Diego Luna. A naturalidade com que se filma os corpos aqui é ponto fundamental para traçar essa cadeia de sentimentos à flor da pele. Mesmo com tantos pontos positivos, O Búfalo da Noite é muito prejudicado por uma trilha sonora que sempre quer ditar sentidos e sensações de forma escandalosa e com uma sub-trama policial (no terceiro ato) que desvia o conceito do filme para algo puramente mercadológico e pé no chão.
Karoy 
de Zhanna Issabayeva. Cazaquistão, 2007.
Azat é o protótipo do homem rebelde e vagabundo que, regido por uma lógica própria de esperteza e maldade contra todos, de um vilarejo a outro, provoca intrigas, desequilíbrios e tragédias. De cada uma de suas vítimas, realidades e sonhos são extraídos e despedaçados, a troco de uma satisfação mórbida e obscura. Um “acidente” envolvendo Azat faz o filme mudar de tom e mostrar um outro lado até então desconhecido para o espectador. O roteiro parece agir como uma força onipresente que confronta a personagem como um deus moralizante, e isso rende o distanciamento necessário para a simbiose com a primeira parte do filme, cuja fotografia árida e os planos contemplativos co-relatam sobre o tempo. O restante, porém, não ressente dessa qualidade, reafirmando valores que pouco acrescentam à jornada desse anti-herói.
posted by tobey, an acer at 12:28 AM
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Domingo, Outubro 14, 2007
ESQUENTA PRA MOSTRA - 1
A maratona da 31a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo começa na próxima sexta-feira, 19. Como no ano passado (falhei nos anteriores), algumas anotações sobre todos os filmes vistos serão postadas aqui no blog. Para esquentar, o que tenho visto de antemão nas cabines, parte 1:
Irina Palm
de Sam Garbarski. Bélgica / Luxemburgo / Reino Unido / Alemanha / França, 2007.
Não há nada que faça o diretor contornar toda previsibilidade deste filme. Garbarski não parte de um conceito para construir a narrativa, e isso é visível a cada entrada e saída da boate, a cada plano do garoto no hospital, a cada conversa com as vizinhas, a cada detalhe do texto do filho sofrendo / chorando / gritando e, claro, a cada troca de olhares entre Irina Palm e seu patrão. E a canção da boate, como se não bastasse, é a única oferta musical oferecida pela casa.
A Outra Margem
de Luís Filipe Rocha. Portugal, 2007.
Drama cuja força se concentra basicamente na performance do garoto Tomás Almeida, portador de síndrome de Down. É a única personagem do filme que, por si só, evolui de maneira concreta. As relações e conflitos do restante sofrem pela falta de tato: ora é apressada e superficial (do sofrimento à redenção do travesti Ricardo), ora mal resolvida (o tema pai e filho), ora óbvia demais (a mãe - apesar do talento da atriz Maria D'Aires). A edição estende situações das quais não há mais nada a se extrair, incluindo, talvez, quase toda participação da travesti composta por Eduardo Silva.
Crimes de Autor (Roman de Gare)
de Claude Lelouch. França, 2007.
Lelouch parece querer reimaginar um best-seller. O grande problema do filme é que, a cada gênero resvalado (comédia, thriller, drama, romance), a cada brincadeira com (melhor dizendo, “citação a”) road-movies, serial killers e passeios na Riviera Francesa, o diretor se aproxima demais das personagens e de seus conflitos e, a cada passagem de tom, fica uma sensação sem graça de que tudo está sendo levado a sério demais. Um desperdício de um elenco muito bom.
Ruptura (Breakout)
de Mike Eschmann. Suíça, 2007.
Uma bagunça sem o menor sentido moral ou estético. Eschmann parece muito preocupado com a estilização da imagem ao som do hip hop e esquece que, ali, existem elementos, externos e internos (sociedade, pessoas, desordem, câmera) a partir dos quais se construiria um filme. Dos planos às situações primárias que entre si não se integram, da péssima caracterização da maior parte das personagens à incapacidade de reter algo físico e / ou psicológico de qualquer coisa que o material pudesse sugerir, a possibilidade de uma comédia involuntária é bastante grande.
posted by tobey, an acer at 10:56 PM
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Terça-feira, Outubro 02, 2007
CONVERSA DE BAR
Nação Fast Food (Fast Food Nation)  
de Richard Linklater. EUA / Reino Unido, 2006.
Linklater é vegan. Dessa necessidade orgânica de contribuir contra a matança de animais e a industrialização de sua carne (ao que parece) surge um pequeno painel sobre os caminhos percorridos acerca dos fatos. Três blocos distintos se conectam através de uma próspera rede de fast food que, assim como Mc Donald's, Burger King e cia., segue a padronização de um mercado que visa somente os próprios interesses, no lucro em cima de cada cabeça (de gado e humana).
A perspectiva de cada estória, contudo, não foge a um certo didatismo, que parece vir da forma como o discurso se apropria do filme. A denúncia surge não através da narrativa, mas sim para moldá-la, de acordo com os próprios interesses.
Não é de todo mau, tendo em vista que o diretor, além de um bom observador de pessoas e do meio em que estão inseridas, não simplifica questões e muito menos parece interessado em investigá-las. A impressão passada por Nação Fast Food (como nos anteriores Waking Life e Antes do Amanhecer / Antes do Pôr-do-Sol) é de uma conversa, de uma franca troca de idéias. Mesmo que soe irregular (em decrescência: as descobertas e utopias adolescentes x a busca da personagem de Kinnear por respostas x todo núcleo dos mexicanos), o conjunto valoriza a complexidade do tema, a espontaneidade do elenco e evita cair em clichês fáceis demais (como a mitificação do bem e do mal). E as cenas "de efeito", óbvias ou não, são muito bem cadenciadas pelo roteiro.
Noves fora, bem simpático filme manipulador.
posted by tobey, an acer at 12:34 AM
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