O décimo longa-metragem de Eduardo Coutinho (Cabra Marcado para Morrer / Edifício Master / O Fim e o Princípio) propõe um exercício de representação, confundindo propositalmente as linhas que separam o real do fictício.
A representação em um sentido amplo, desde a idéia dentro da arte dramática até a maneira de exposição de si, dos outros e de uma visão particular.
Oitenta e três mulheres atenderam a um anúncio de jornal para contarem suas estórias de vida. Vinte e três delas foram selecionadas e conversaram com o diretor dentro de um teatro. Semanas depois, atrizes de prestígio interpretaram os relatos, cada uma a seu modo.
Se há uma razão para aproximar o ator do entrevistado é porque Coutinho parece ter consciência de que existe uma “barreira” que distancia famosos de anônimos, em uma espécie de pirâmide social; é a partir das reações obtidas nas entrevistas e através delas, porém, daquilo que nos une emocionalmente e que nos define igualmente enquanto seres de uma mesma espécie, que o filme trata de tentar quebrá-la.
Jogo de Cena traça paralelismos entre esse encontro diretor / atriz / objeto / público e esgarça certa interatividade no embaralhamento de posições dentro desse universo.
Alguns dos melhores momentos ficam por conta das observações das próprias atrizes sobre o processo de interiorização das personagens, mostrando como a emoção, no caso, interfere definitivamente na criação - e novamente o filme encontra esses instantes de aproximação entre as pessoas, de pureza e pequenas e simples belezas.
Essa busca, por alguma verdade, verdadeiramente justa e humana, em meio a tantos males e incertezas, é colada à figura observadora de Coutinho (perceptível também em outros de seus trabalhos). Os mecanismos dessa busca, naturalmente, estão invariavelmente relacionados ao seu poder como diretor.
O cineasta parece mais que ciente que esse “poder” é o que pode determinar o sucesso do resultado, e com isso, durante o processo, procura não medir esforços para extrair do objeto aquilo que realmente procura. Não são raros os momentos em que os entrevistados alternam sensações de incômodo ou constrangimento diante da maneira como as conversas são conduzidas - o maior expoente, talvez, quando Coutinho ri de uma das mulheres enquanto ela chora, ainda emocionada.
Os resultados disso talvez sejam algumas das próprias virtudes do filme, incompativelmente, ao mesmo tempo em que permanece a forte sensação provocada pelo mesmo efeito duro e direto que atingira o entrevistado (afinal, a câmera nele permaneceu fixa), batendo de frente com o que o material apresenta de puro e inusitado.
Convenhamos, nem só de pureza e ações extraordinárias dependem um filme, mas tudo nele está sujeito a escolhas. As de Coutinho, dentro de um projeto repleto de minúscias, exercem tanto atração quanto repulsa.
Hairspray – Em Busca da Fama (2007, Adam Shankman) A Virgem Desnudada por Seus Pretendentes (2000, Hong Sang-soo) O Dia em que o Porco Caiu no Poço (1996, Hong Sang-soo) Across the Universe (2007, Julie Taymor) Conto de Cinema (2005, Hong Sang-soo) Santos e Demônios (2006, Dito Montiel) Mulher na Praia (2006, Hong Sang-soo) Novo Mundo (2006, Emanuele Crialese) Encantada (2007, Kevin Lima) Garçonete (2007, Adrienne Shelly) A Noiva Perfeita (2006, Eric Lartigau) Cada um com Seu Cinema (2007, vários) A Coragem de Amar (2005, Claude Lelouch) A Espiã (2006, Paul Verhoeven) O Sobrevivente (2006, Werner Herzog) No Vale das Sombras (2007, Paul Haggis) Cão sem Dono (2007, Beto Brant / Renato Ciasca) Eu e as Mulheres (2007, Jon Kasdan) O Livro das Revelações (2006, Ana Kokkinos) P.S. Eu Te Amo (2007, John LaGravenese) O Diário de uma Babá (2007, Shari Springer Berman / Robert Pulcini) O Fim do sem Fim (2000, Beto Magalhães / Cao Guimarães / Lucas Bambozzi) Armênia (2006, Robert Guédiguian) O Ex-Namorado da Minha Mulher (2006, Jesse Peretz) O Suspeito (2007, Gavin Hood) Sombras de Goya (2006, Milos Forman) Deepwater (2005, David S. Marfield) PQD (2007, Guilherme Coelho)
Sem contar os filmes da 31a. Mostra. Entre vistos e revistos:
30 Dias de Noite (2007, David Slade) O Amor nos Tempos do Cólera (2007, Mike Newell) Podecrer! (2007, Arthur Fontes) Antes Só do que Mal Casado (2007, Peter e Bobby Farrelly) O Passado (2007, Hector Babenco) Cão de Briga (2005, Louis Leterrier) Mutum (2007, Sandra Kogut) Sem Controle (2007, Cris D'amato) Leões e Cordeiros (2007, Robert Redford) Meu Melhor Amigo (2006, Patrice Leconte) O Magnata (2007, Johnny Araújo) Abismu (1977, Rogério Sganzerla) As Bellas da Billings (1986, Ozualdo Candeias) Planeta Terror (2007, Robert Rodriguez) 1408 (2007, Mikael Hafstrom) De Repente, Califórnia (2007, Jonah Markowitz) Angel-A (2005, Luc Besson) A Vida dos Outros (2006, Florian Henckel von Donnersmarck) Spider Lillies (2007, Zero Chou) Conduta de Risco (2007, Tony Gilroy) Os Donos da Noite (2007, James Gray) O Reino (2007, Peter Berg) Angel (2007, François Ozon) A Casa de Alice (2007, Chico Teixeira)
Com exceção daqueles vistos durante a 31a. Mostra:
Nação Fast Food (2006, Richard Linklater) Ligeiramente Grávidos (2007, Judd Apatow) Tropa de Elite (2007, José Padilha) Sympathy for the Devil (1968, Jean-Luc Godard)
Minhas planilhas de filmes vistos durante os meses estão sendo devidamente reorganizadas. Tentativa de reorganização da casa, e de outras coisinhas também. Aos poucos:
Encontros ao Acaso (2006, Joey Lauren Adams) Morrer ou Viver (1999, Takashi Miike) Sem Reservas (2007, Scott Hicks) Rio Grande (1950, John Ford) Primo Basílio (2007, Daniel Filho) Possuídos (2006, William Friedkin) Heroic Trio (1993, Johnnie To) Cidade dos Homens (2007, Paulo Morelli) Paranóia (2007, DJ Caruso) Exuberante Deserto (2006, Dror Shaul) Hairspray – Em Busca da Fama (2007, Adam Shankman) Invasores (2007, Olivier Hirschbiegel) Piaf – Um Hino ao Amor (2007, Olivier Dahan) Angela (2002, Roberta Torre) O Ultimato Bourne (2007, Paul Greengrass) O Homem que Virou Suco (1980, João Batista de Andrade) O Pequeno Italiano (2005, Andrei Kravchuk) A Promessa (1996, Jean-Pierre e Luc Dardenne) Os Simpsons – O Filme (2007, David Silverman) Anjos Exterminadores (2006, Jean-Claude Brisseau) Depois do Casamento (2006, Susanne Bier) Nunca É Tarde para Amar (2007, Amy Heckerling) Bem-Vindo a São Paulo (2004, vários) Encontro com Milton Santos ou: O Mundo Global Visto do Lado de Cá (2006, Silvio Tendler) Trabalho Ocasional de uma Escrava (1973, Alexander Kluge) Despedida de Ontem (1966, Alexander Kluge) Imperativo (1982, Krzysztof Zanussi)
Dois “temas” cercam de complexidade este novo trabalho de Emanuele Crialese, diretor do notável Respiro.
Um deles diz respeito ao velho e ao novo mundo, do choque bruto dos antigos costumes frente às burocracias, padronizações e preconceitos da sociedade moderna. Novo Mundo, no entanto, não é tolo para simplicar a questão do imigrante europeu e da América, enxergando simplesmente uma vítima e um aproveitador, um clichê e um outro.
Mesmo sob o ponto de vista dos que desembarcam na nova terra, o que vemos parece querer investigar, a partir das humilhações sofridas por eles, as origens desse choque, de como cada um reage de acordo com as condições do meio em que está inserido, com todas as características emergidas com o passar dos anos.
Há uma série de normas que parecem surgir da maneira como o homem se vê naquele momento, levando em conta suas condições, predisposições, criação, geografia e o tempo. Crialese sai em defesa dos italianos, claro, mas isso não parece uma questão de nacionalidade nem de história. O que me passa mais claramente é a questão do invisível, daquilo que não se pode compreender de maneira imediata.
O outro “tema” está diretamente relacionado ao primeiro, e também, provavelmente, colado a certa universalidade. Há um grande sentimento em Novo Mundo que parece ser o da descoberta, preso a um grande alicerce, que é uma viagem. A viagem dentro de um plano metafórico, da vida como jornada, e de um plano estético, que o filme expõe de maneira a impor a essa jornada um conceito de embaraço, que talvez só o surrealismo possa realmente lhe fazer justiça.
Há algumas sequências que retratam uma época (começamos na Sicília, início do século XX); outras representam sonhos, conferindo ao filme, de certa forma, aspectos do gênero fábula. São todas elas quem determinam tridimensionalmente alguns dos sentidos que Crialese parece criar para sua mise en scène: do real aos mitos, da vida aos sonhos, do documento à fabula, os conceitos se anulam e se co-relacionam dentro de uma grande alegoria das incertezas do mundo.
Novo Mundo é um arejo ao filme de época, cujas construções belíssimas, que conciliam planos rigorosos aos sons de passos, vento, objetos e música, integram-se à pluralidade desses “temas”, deixando ao espectador um mundo tátil, no qual se pode discorrer.
O filme já começa com uma dúvida: escalando uma montanha pedregosa, temos pai e filho. Salvatore Mancuzo é o pai (o excepcional Vincenzo Amato) que, ao alto, indaga a uma santa se devem ou não partir, para um lugar nunca antes visto, cujos boatos dizem reservar cenouras gigantes, árvores com dinheiro e rios repletos de leite. É para a terra da fartura, das oportunidades, onde Salvatore decide levar seus dois filhos, Angelo e Pietro, e sua mãe, Fortunata.
Pouco antes de embarcarem no navio, em meio à multidão, conhecem uma moça distinta, Lucy Reed (Charlotte Gainsbourg), um mistério em meio a um mar de hesitações.
O me parece a maior consciência de Novo Mundo (para além de Fortunata e suas incríveis reações ao meio) é a personagem de Filippo Pucillo, o mudo Pietro, filho de Salvatore. Pietro, na verdade, revela algo ao final (que não convém entregar), e não se sabe muito bem o porque de não falar. Diante da partida, mostra-se arisco. Durante toda jornada, até a chegada, Pietro é alguém que não se enquadra, que não se ajusta ao que é dito ou subentendido como “correto”.
Essa inadequação, que também entrelaça esta obra-prima ao trabalho anterior de Crialese. A escalada de pedras, no início, reimaginada ao final, fabulada, em um nado, dentro de um rio de leite, cruzando-se ao balanço das pernas ao final de Respiro. A jornada do ser, em busca de sua totalidade, talvez seja a mesma. Descobrir a si mesmo é o mínimo: para que e para onde ir parecem ser os grandes questionamentos.
Nuovomondo de Emanuele Crialese. Roteiro de Emanuele Crialese. Vincenzo Amato, Charlotte Gainsbourg, Aurora Quattrocchi, Francesco Casisa, Filippo Pucillo. 112 minutos. Itália / Alemanha / França, 2006.
Revisto no Espaço Unibanco 3, SP, Dezembro / 2007.